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    <title>Blogolento - Slow Blog</title>
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    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    <subtitle>It&apos;s all a question of time. Take your time to read, take your time to write.
O Adufe só pára quando se quedar o coração, mas o coração não resiste à cadência contagiante e permanente do batuque acelerado dos dias.
É preciso tempo para esquecer o frenesim e brincar um pouco. Haja tempo para ir navegando neste blogolento.
Blogolento, um blogue frito em óleo sempre novo.
O meu nome é Rui M Cerdeira Lélé  Branco.</subtitle>
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    <title>Porque nada do que antes tiveram deixaram de ter</title>
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    <published>2006-05-05T10:15:43Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary> Estavam num cadeirão largo forrado com almofadas creme. Ele sentado, de fato azul, talvez de seda, impecavelmente engomado. Ela quase deitada, com a cabeça aninhada no ombro dele, embrulhada num xaile cor de pérola. Olhavam a noite da cidade,...</summary>
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        <name>Rui</name>
        
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        <![CDATA[<p><a href="http://intima.blogspot.com/2006/04/ntima-fraco-deste-fim-de-semana-talvez.html"><img alt="windowpeople.gif" src="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/windowpeople.gif" width="167" height="142" align=right vspace=3 hspace=3/></a> Estavam num cadeirão largo forrado com almofadas creme. Ele sentado, de fato azul, talvez de seda, impecavelmente engomado. Ela quase deitada, com a cabeça aninhada no ombro dele, embrulhada num xaile cor de pérola.</p>

<p>Olhavam a noite da cidade, com a vista que se tem dos telhados. A espaços ele sussurrava e ambos riam com igual discrição. Esperavam pelo acender e apagar das luzes dos vizinhos como antes esperaram os traços de luz a atravessar o firmamento.</p>

<p>Antes, no tempo em que ele não usava fatos e ela ainda não descobrira aquele ombro, quando a cidade não existia, a solidão oferecia-lhes palavras, melodias, sensibilidades. Era generosa. Uma dor boa que transformavam, cada um à sua maneira, em antecipação rosada.</p>

<p>Depois, quando ela finalmente descobriu o seu ombro, houve um tempo em que embruteceram para o mundo, desperdiçando-se por entre essências.</p>

<p>Hoje, neste momento, agora, estão de novo no terraço, encontrando magia nas luzes dos pirilampos da cidade. Ele está a esticar o braço... com cautela para não a acordar.<br />
Apagou a fraca luz de presença. Que disse?...</p>

<p>Boa noite.</p>]]>
        
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    <title>A minha vida por um parágrafo</title>
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    <published>2006-04-05T09:00:54Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary>Vivia cercado pela rotina. De tempos em tempos, sem periodicidade certa, ia estrebuchando contra ela. Conseguia mesmo identificar nos arquivos primevos da sua memória momentos desses que poderiam ter sido tão aparentemente inócuos como passar a ir para a escola...</summary>
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        <name>Rui</name>
        
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            <category term="Contos" />
    
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        <![CDATA[<p><img alt="gato rotina.jpg" src="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/gato%20rotina.jpg" width=80% / align=right vspace=2 hspace=4>Vivia cercado pela rotina.</p>

<p>De tempos em tempos, sem periodicidade certa, ia estrebuchando contra ela. Conseguia mesmo identificar nos arquivos primevos da sua memória momentos desses que poderiam ter sido tão aparentemente inócuos como passar a ir para a escola por um caminho diferente (algo que, pensando melhor, não tem nada de inócuo na idade de todas as inseguranças e curiosidades no mundo de um menino mimado) ou tão corriqueiros como mudar de penteado ou de modo de vestir. Sabia agora que o fizera, não para afirmar a personalidade ou para procurar identificar-se com alguma tribo mas, para cumprir uma outra eventual teoria que estudasse a batalha perene contra a rotina. Sem surpresa e com algum gozo, matutava neste instante que as teorias só se dão bem com fenómenos rotineiros.</p>

<p>Os anos passaram e hoje continuava a combater a rotina de forma não militante e não sistemática. Contentava-se com espasmos pouco exuberantes, apenas muito pontualmente cedia a pulsões românticas; devaneios pela estrada fora sem destino nenhum. Habitualmente preferia meter-se dentro de um livro, ou escrever no blogue, residência à qual alterava fundos, tipos de letra e nomes oficiais com bastante regularidade. Teria como arma fundamental na luta anti-rotina a cosmética, ou pelos menos, esta bastava-lhe na grande maioria dos acessos de angústia induzida pela rotina. Divertia-se. Rir contra rotina, atacando-a com ela própria!</p>

<p>A verdade é que era um ser pacífico, não suportaria viver sem rotina durante muito tempo. "Há poucos males absolutos e a rotina não é um deles", pensava quando imaginava os milhões de humanos anónimos supostamente ignorados pela História.</p>

<p>Contudo... Hoje pôs-se a matutar de novo na rotina, no seu excesso e, particularmente, na forma ironicamente rotineira, que escolhera para controlar aquela febre esporádica. Descobriu que se inspirara nos escapes das locomotivas que frequentara a caminho da Beira (Baixa) durante muitos anos, desde criança. Pelo meio de uma sucessão de pouca-terras ouvia-se de quando em quando um silvo gasoso, com marca singular, libertando-se de parte incerta.  Era este o seu programa anti-rotina: tinha como padroeiro um cavalo mecânico mas relinchante.</p>

<p>Aqui está ele agora, levantando um copo imaginário e brindando enquanto clama que relinchar é o seu remédio, isso e um ou outro coice acidental, “ e serei sempre assim, até ao ponto final”, promete numa tentativa de autoconvencimento.</p>

<p>Enquanto o néctar imaginário lhe escorre pela goela abaixo, remata: “Eis um simpático programa para que se possa dar o devido valor a um belo parágrafo”.</p>]]>
        
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    <title>Como uma pluma</title>
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    <published>2006-01-30T09:00:29Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary><![CDATA[Ouvem-se os passos, só os passos. A gente aperta-se, sem pressas, sem empurr&otilde;es, numa ordem que só se consegue pela disciplina ou pela apatia. Milhares de passos de milhares de pessoas. Descemos os degraus, tantos degraus, desde o topo da...]]></summary>
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        <![CDATA[<p><a href="http://www.sporting.pt"><center><img alt="liedson_28_01_2006_II.jpg" src="http://adufe.weblog.com.pt/arquivo/liedson_28_01_2006_II.jpg" width="468" height="220" /></center></a><p align="justify" class="MsoNormal">Ouvem-se os passos, só os passos. A gente aperta-se, sem pressas, sem empurr&otilde;es, numa ordem que só se consegue pela disciplina ou pela apatia. </p><div align="justify">    </div><p align="justify" class="MsoNormal">Milhares de passos de milhares de pessoas. Descemos os degraus, tantos degraus, desde o topo da bancada, literalmente desde as luzes da ribalta at&eacute; &agrave;s entranhas dos bastidores. </p><div align="justify">    </div><p align="justify" class="MsoNormal">Na rua recebe-nos o lixo dos preliminares: os restos dos cachorros quentes, dos couratos, da cerveja e algumas bandeirinhas de uso ef&eacute;mero que nos ofereceram &agrave; entrada. Chegados ali, vamo-nos apagando como brasas que se separam numa fogueira&hellip; É nessa altura que o frio nos assalta que a chuva se torna inclemente. É ent&atilde;o que a derrota &eacute; mais nossa. </p><p align="justify" class="MsoNormal">Haja o aconchego de um cachecol, pintado com as nossas cores, sempre ao pesco&ccedil;o, sem vergonha. Para uns como uma cicatriz, para outros como uma pluma.</p><p align="justify" class="MsoNormal">Hoje tenho uma pluma em casa.&nbsp;</p></p>]]>
        
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    <title>Verde Código Troco</title>
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    <published>2006-01-19T22:10:39Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary><![CDATA[(Talvez seja a continua&ccedil;&atilde;o deste conto, ou talvez n&atilde;o) Tinha este estranho hábito de ir ao supermercado e pagar sempre a dinheiro. Comprar a roupa, um livro, encher o depósito do carro ou mesmo ir apostar na lotaria, fazia-o recorrendo...]]></summary>
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        <![CDATA[<p align="justify"><em>(Talvez seja a continua&ccedil;&atilde;o <a href="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/2006/01/o_suplicio_de_tantalo_1_parte.html">deste conto</a>, ou talvez n&atilde;o)</em>  </p><p align="justify">  </p><p align="justify" class="MsoNormal">Tinha este estranho hábito de ir ao supermercado e pagar sempre a dinheiro. Comprar a roupa, um livro, encher o depósito do carro ou mesmo ir apostar na lotaria, fazia-o recorrendo ao cart&atilde;o de d&eacute;bito mas quando ia ao supermercado tinha esta mania.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><em>S&atilde;o 21 euros e 30 c&ecirc;ntimos</em>, interpelou-o a caixa.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Faltavam-lhe sempre a serenidade e as m&atilde;os para meter os produtos nos sacos, tirar o cart&atilde;o, digitar números, continuar a arrumar a tralha para logo interromper a tarefa recolhendo o tal&atilde;o e os cart&otilde;es (o de d&eacute;bito e o cart&atilde;o de desconto para o estacionamento). Acabava sempre acossado, com as compras atafulhadas &agrave; pressa nos sacos quando avan&ccedil;ava já sobre ele o cliente seguinte, geralmente com a cara cheia de olhos, reclamando o território que já deixara de lhe pertencer.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Chegava a invejar as famílias que iam &agrave;s compras e, particularmente, os casais que observava enquanto esperava na fila. Alguns haviam desenvolvido tal t&eacute;cnica que pareciam mais rotinados que os próprios operadores de caixa. A economia de gestos era absoluta, o planeamento cuidado, presente desde logo na forma como os produtos haviam sido arrumados no carro de compras durante a excurs&atilde;o pelos corredores do supermercado. As compras eram dispostas na passadeira rolante da caixa em eficientíssima linha de embalamento taylorista para num ápice tudo estar acondicionado no carro de compras no mais reduzido espa&ccedil;o de carga possível. Haviam variantes &eacute; certo, que denunciavam algo sobre a especializa&ccedil;&atilde;o de cada casal. Uns distribuíam a carga equitativamente pela superfície do carro de compras, preocupando-se com a est&eacute;tica dos volumes, outros acumulavam os produtos mais pesados junto ao eixo traseiro pondo a &ecirc;nfase na massa e no conforto ao empurrar o carrego.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">O casal que o antecedera era um desses exemplos típicos, alvo preferencial da sua inveja. Na linha de embalagem, ela abria os sacos e acamava no fundo os primeiros pesos, ele acabava de os encher e guardava-os no carro de compras. Ele apresentava o cart&atilde;o de pagamento; ela completava com o tal&atilde;o de estacionamento.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><em>N&atilde;o me arranja 1 euro e 30 c&ecirc;ntimos</em>, voltou a interpelá-lo a caixa.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Depois havia esta parte de fazer troco que o encantava. Lembrava-se sempre de quando ia &agrave;s compras com a sua m&atilde;e. Recordava-se especialmente das idas &agrave; feira num tempo em que os cart&otilde;es de Multibanco eram ainda algo exótico, cujo sucesso futuro alguma mente mais visionária poderia apenas imaginar.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Fazer o troco podia dar azo a casos com os mais diversos desfechos. Desde os mais conciliadores onde, em desespero de causa, vendedores desavindos se viam for&ccedil;ados a recorrer, com humildade disfar&ccedil;ada por interjei&ccedil;&otilde;es ríspidas, aos pr&eacute;stimos alheios, at&eacute; a verdadeiras alterca&ccedil;&otilde;es entre compradores e vendedores, reclamando estes últimos da falta de dinheiro trocado por parte da clientela que parecia toda acabada de sair da fila do banco com as carteiras habitadas apenas por notas de conto ou mais. </p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Olhou o porta-moedas e encontrou a quantia pedida. Ganhou na volta um genuíno sorriso de agrado a acompanhar a nota de troco e o tal&atilde;o das compras.</p><div align="justify">  </div><p align="justify">Pegou nos dois sacos e seguiu animado rumo &agrave; luz da rua.</p>]]>
        
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    <title>A Irmandade dos Anéis</title>
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    <published>2006-01-18T00:30:55Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary>Eis um blogue muito peculiar que pertence a uma casta sem nome, mas muito bem definida: Sociedade Anónima - A Irmandande dos Anéis. Ainda que transgrida quase todos os dias em excesso de velocidade, gosto de lá passar como se...</summary>
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        <name>Rui</name>
        
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            <category term="Sugestões blogolentas" />
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/">
        <![CDATA[<p>Eis um blogue muito peculiar que pertence a uma casta sem nome, mas muito bem definida: <a href="http://soc-anonima.blogspot.com/">Sociedade Anónima - A Irmandande dos Anéis</a>.<br />
Ainda que transgrida quase todos os dias em excesso de velocidade, gosto de lá passar como se fosse um blogolento, um <em>slow blog</em>, um que se lê com tempo, de vez em quando, como quem saboreia um prato delicioso que se quer fazer <a href="http://soc-anonima.blogspot.com/2006/01/quando-ouo-msica-eu-dano.html">durar</a>.</p>]]>
        
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    <title>O Suplício de Tântalo</title>
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    <published>2006-01-17T09:00:53Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary><![CDATA[ I Splat! Mesmo no cocuruto da cabe&ccedil;a! Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo, oferecendo-lhe um desconforto moment&acirc;neo, estupidamente desproporcionado face &agrave; dimens&atilde;o da gota de água gelada. Uma mini gota na realidade pois apesar do cabelo que lhe povoava...]]></summary>
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        <![CDATA[  <p align="justify" class="MsoNormal"><strong>I</strong> </p><div align="justify"><p align="justify" class="MsoNormal">Splat! Mesmo no cocuruto da cabe&ccedil;a! Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo, oferecendo-lhe um desconforto moment&acirc;neo, estupidamente desproporcionado face &agrave; dimens&atilde;o da gota de água gelada. Uma mini gota na realidade pois apesar do cabelo que lhe povoava a cabe&ccedil;a ser quase inexistente, esta dissipou-se sem encontrar o destino das da sua esp&eacute;cie: esborrachar-se nas pedras da cal&ccedil;ada de Lisboa. </p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">O aguaceiro passara havia poucos minutos e a cidade brilhava agora iluminada pelo sol de Dezembro. O frenesim da hora de almo&ccedil;o tomava conta do bairro com os edifícios de escritórios a despejarem na rua funcionários que haviam aguardado pacientemente por um intervalo nas hostilidades climat&eacute;ricas.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Em contrapartida, o movimento automóvel parecia mais de um Domingo quando, de facto, se caminhava para o meio-dia de uma sexta-feira. Na v&eacute;spera fora feriado e, apesar do temporal intermitente que durava há alguns dias, a cada vez mais t&eacute;nue lembran&ccedil;a do Ver&atilde;o fazia as suas mossas levando algum povo da cidade e arredores a mudar de ares.</p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">&ldquo;De hoje a oito estou na santa terrinha a apanhar azeitonas&rdquo;, pensava o aluno do T&eacute;cnico que acabara há pouco as aulas. &ldquo;Porra para isto! Esqueci-me outra vez de trazer as botas para o sapateiro!&rdquo;, murmurava imperceptivelmente uma mulher de fato cinzento que saia apressada do banco ali ao lado. &ldquo;Ainda ontem enchi o depósito e hoje baixam o pre&ccedil;o. Vou passar a meter só 10 &euro; de cada vez&rdquo;, cogitava um motociclista de fones nos ouvidos e de impermeável multicolor florescente que esperava o sinal verde. &ldquo;Ai!&rdquo; deverá ter exclamado um miúdo com cerca de 10 anos que, de sacola &agrave;s costas, se reequilibrava do bate-cu que dera no passeio do outro lado da estrada, já &agrave; porta do pr&eacute;dio fino, onde teria o almo&ccedil;o feito pela ama &agrave; sua espera. Deverá ter exclamado porque entretanto o motociclista acelerou e encheu de fumo e de ruído aquele canto da cidade. Era nisto que pensavam os vizinhos ocasionais do nosso personagem pingado. Ou pelo menos era isto que ele julgava pensarem, enquanto observava os passantes, escondido da cidade num abrigo formado por uma árvore antiga de tronco generoso e pela tenda de Inverno da esplanada de um caf&eacute;. </p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Ligeiramente aborrecido resolveu mirar as caleiras gotejantes de onde se desprendera a gota irritante, detendo-se, com o pesco&ccedil;o bem dobrado, surpreso e um pouco ofuscado pela luminosidade das paredes brilhantes. De olhos semicerrados, o que via era a dan&ccedil;a de p&eacute;rolas de água caindo quase sempre mas errando tamb&eacute;m ao sabor de caprichosas correntes de ar que acompanhavam o edifício e que por vezes retardavam o acorde final que findava a dan&ccedil;a de cada bailarina junto &agrave;s pedras da cal&ccedil;ada. No último instante antes de receber novo baptismo, desta vez bem no meio da testa, decidiu aproximar-se da protec&ccedil;&atilde;o da parede do pr&eacute;dio; esperava pacientemente a sua vez para levantar dinheiro na caixa Multibanco. </p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><strong>II</strong></p><div align="justify">Estou fodida com esta merda! Isto sim, era algo bem audível e inquestionável ao nosso personagem de cabe&ccedil;a pingada. A exalta&ccedil;&atilde;o viera da mulher que estava &agrave; sua frente a usar o Multibanco, abrigada do pinga-telhado pelo guarda-chuva. Já há algum tempo que ele esperava vez e a seguir &agrave; exalta&ccedil;&atilde;o percebeu que se enfiava um cart&atilde;o na máquina para nova opera&ccedil;&atilde;o. Com gestos bruscos, a mulher martelou o teclado do aparelho enquanto condimentou o ataque de nervos com mais umas palavras dignas dos melhores recreios de uma qualquer escola secundária da periferia de Lisboa. Como s&atilde;o disponíveis e generosas as caixas Multibanco quando comparadas com os seus colegas caixas de banco feitos de carne e osso.  </div><p align="justify" class="MsoNormal">De súbito, come&ccedil;aram a chover moedas que saltitaram no ch&atilde;o at&eacute; aos p&eacute;s do nosso paciente personagem, todas aparentemente despejadas no solo pela carteira da mulher do Multibanco que sacava definitivamente o cart&atilde;o e virava costas em passo ligeiro e com gestos agitados, desinteressada do dinheiro. Pareceu-lhe vislumbrar uns óculos escuros, o resto que viu foi o padr&atilde;o ondulado, em tons de creme, do guarda-chuva que se manteve aberto sob o agora radioso abra&ccedil;o solar. </p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal">Só moedas de cinco c&ecirc;ntimos ao que parecia, do alto do seu metro e setenta e cinco; dobrou-se a amealhou-as. 20 c&ecirc;ntimos, meio pacote de bolachas Maria.</p><p align="justify" class="MsoNormal"><em>(Talvez continue, quem sabe.</em> )</p>  </div>]]>
        
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    <title>Os 500 anos do Progrom de Lisboa</title>
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    <published>2006-01-11T10:35:50Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary> Numa entrada recente no Miniscente (blog onde encontrei a imagem que aqui reproduzo), Luís Carmelo lembrou que se comemora neste ano o cinquentenário do Progrom de Lisboa, mais precisamente no dia 8 de Abril de 2006. Recupero aqui, no...</summary>
    <author>
        <name>Rui</name>
        
    </author>
            <category term="Contos" />
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/">
        <![CDATA[<a href="http://luiscarmelo.blogspot.com/2005_09_01_luiscarmelo_archive.html#112680080949289895"><img vspace="3" hspace="3" border="0" align="right" src="http://home.pacbell.net/nguerrei/massacre_sec_xvi.jpg" /> </a><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Numa <a href="http://luiscarmelo.blogspot.com/2006_01_01_luiscarmelo_archive.html#113665237495014326">entrada recente</a> no <a href="http://luiscarmelo.blogspot.com/">Miniscente</a> (blog onde encontrei a imagem que aqui reproduzo), Luís Carmelo lembrou que se comemora neste ano o cinquentenário do Progrom de Lisboa, mais precisamente no dia 8 de Abril de 2006. Recupero aqui, no Blogolento, um texto original de 1998 escrito como consequ&ecirc;ncia de minha absoluta ignor&acirc;ncia sobre o assunto &agrave; altura. Uma ignor&acirc;ncia de que despertei lendo um artigo de um colaborador do Diário de Notícias. Este texto - já publicado no <a href="http://adufe.weblog.com.pt/arquivo/2003/08/excerto_da_emis.html">Adufe</a> em 15 de Agosto de 2003 - foi ligeiramente revisto há poucos instantes.</span></em></p><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"><p align="justify" class="MsoNormal"><br />Excerto da emiss&atilde;o radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional</p></span><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">&nbsp;&laquo;A Portugal FM apresenta:</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Novos Mundos - Espa&ccedil;o de informa&ccedil;&atilde;o e debate com Gon&ccedil;alo Cortez.<br /></span><br /><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Gon&ccedil;alo Cortez (GC):</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Muito boa tarde senhores ouvintes. Inicia-se mais uma edi&ccedil;&atilde;o de Novos Mundos, desta feita em directo da Ribeira de Lisboa. &Agrave; nossa frente está fundeada e pronta para zarpar a primeira frota portuguesa a demandar o caminho da India neste ano da gra&ccedil;a de 1516. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">A azáfama visível no cais &eacute; bem característica dos últimos preparativos para aquela que se espera mais uma proveitosa empresa para o reino e para o distinto capit&atilde;o, sendo este, se n&atilde;o estou falho de memória, D. Lopo de Orgens. Como pano de fundo para o nosso espa&ccedil;o de entrevista temos o grandioso Pa&ccedil;o da Ribeira onde a corte prepara uma festa de Boa Fortuna em homenagem aos marinheiros, prestada na pessoa do seu capit&atilde;o. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Ainda há poucos instante tivemos oportunidade de saudar El Rei e sua esplendorosa comitiva, quando este terminou mais um dos seus tradicionais passeios pela capital. Saiba-se que D. Manuel se mostrou em sedosos panos de tom azul-marinho pontuados com pequenos adornos dourados e cintilantes que n&atilde;o nos foi possível classificar. Sua majestade revelou um sorriso constante, apresentava um semblante calmo e um olhar confiante. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Voltaremos dentro de momentos para vos apresentar os entrevistados de hoje. Fique connosco, somos a Portugal FM.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Publicidade:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Grande venda de escravos do Mestre Andr&eacute;! Amanh&atilde;, na pra&ccedil;a do Pelourinho Velho. Lotes de 2, 4 e 6 escravos servis e qualificados para todas as tarefas! Em apresenta&ccedil;&atilde;o machos e f&ecirc;meas provenientes da melhor terra de Africa. Voc&ecirc; merece! A venda terá lugar de manh&atilde;, pelas dez horas. N&atilde;o se arrependa depois, apare&ccedil;a! Olhe que o seu vizinho vai estar lá!...</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Ao meu lado tenho os dois entrevistados de hoje, ambos s&atilde;o lisboetas e ambos se passeavam aqui pela Ribeira há cerca de uma hora, altura em que os interpelámos e convidámos a participarem na nossa entrevista semanal. &Agrave; minha direita tenho Dami&atilde;o Vicente, de 26 anos. Dami&atilde;o foi antigo soldado na Índia com D. Francisco de Almeida, escriba de alugo no Pelouro Velho durante um ano e, de momento, &eacute; animador da corte, colaborando com Gil Vicente com quem, realce-se, n&atilde;o tem la&ccedil;os familiares. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">&Agrave; minha esquerda tenho Mafalda Capitoa, de 29 anos, peixeira no mercado da ribeira desde que se lembra. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Agrade&ccedil;o a disponibilidade de vossas merc&ecirc;s para estarem presentes nesta entrevista.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">O assunto principal que pretendo abordar &eacute; a &ldquo;Matan&ccedil;a de Pascoela&rdquo; sobre a qual se comemoram hoje precisamente 10 anos. Antes de vos pedir opini&atilde;o e de fazermos o balan&ccedil;o da situa&ccedil;&atilde;o nestes dias, proponho que ou&ccedil;amos uma pe&ccedil;a preparada por Álvaro Torres sobre o massacre de há dez anos...</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">AT:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> <em>Em Abril de 1506 a cidade de Lisboa vivia os horrores da peste e da impot&ecirc;ncia. Os habitantes procuravam atrav&eacute;s de rituais e cerimónias sagradas manter a f&eacute;. Refor&ccedil;avam-se os apelos &agrave; misericórdia divina.</em></span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">No dia 8 desse m&ecirc;s, comemorou-se o Domingo de Pascoela. Por toda a cidade se realizaram prociss&otilde;es e servi&ccedil;os religiosos em memória dos que haviam sido levados pela doen&ccedil;a e em favor dos pecadores que aos milhares rogavam por vida s&atilde;.<br /></span></em></p><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Segundo mais tarde apuraram os conselheiros d&rsquo; El Rei e os nossos repórteres, no Mosteiro de S&atilde;o Domingos, o solo sagrado esteve perto de ser tingido de sangue, sangue de crist&atilde;o-novo.</span></em></p><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Em pleno servi&ccedil;o, aos gritos de &ldquo;Milagre!&rdquo;, entoados pela massa ávida por revela&ccedil;&otilde;es e apoio divino, sobrepuseram-se as considera&ccedil;&otilde;es de uma alma menos cr&eacute;dula.</span></em></p><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Uma luz ou um sinal? Um crist&atilde;o-novo apregoava que o que se via no altar era um reflexo de luz, que entrava por uma fresta; a multid&atilde;o indignou-se perante a nega&ccedil;&atilde;o da sua vis&atilde;o e encontrou assim sobre quem exercer a catarse. Um alvo perfeito por ser estranho, diferente, introvertido e invejável na riqueza, um culpado inquestionável: o &laquo;Assassino de Jesus!&raquo;. </span></em></p><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Num ai, toda a cidade gritava as palavras condenatórias, toda a cidade espancava e sofria. Em dois dias morreram mais de dois milhares de crist&atilde;os-novos, &agrave;s m&atilde;os de outros lisboeta, ati&ccedil;ados por ditos &ldquo;puros&rdquo; da f&eacute; crist&atilde;. Estava consumado um dos dias mais sangrentos da história desta cidade. </span></em></p><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Sua majestade, indignada com o desrespeito pelas suas ordena&ccedil;&otilde;es sobre os crist&atilde;os-novos, puniu severamente os &ldquo;puros&rdquo; e mais 50 de Lisboa morreram em consequ&ecirc;ncia; desta feita, na forca. A cidade perdeu alguns dos favores d&rsquo; El Rei e o país, ou se calou por vergonha, ou ficou num murmúrio cúmplice. </span></em></p><p align="justify" class="MsoNormal"><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Hoje, passados 10 anos, s&atilde;o ainda frequentes quezílias com pretexto religioso e o massacre, se bem que nunca mais repetido, surge ainda bem vivo na memória de uns e de outros, atravancando a boa viv&ecirc;ncia entre todos os de Portugal.</span></em></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">&nbsp;</span><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Mais um trabalho de Álvaro Torres para a Portugal FM.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">A seguir &agrave; publicidade vamos ouvir os comentários dos dois lisboetas convidados.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Publicidade:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Se está farto, fartinho da poalha e dos maus cheiros que infestam a cidade&hellip; Se enjoou a paleta de tecidos que tem em casa e procura algo diferente&hellip; Se tem problemas com a digest&atilde;o ou se a comida n&atilde;o lhe sabe bem&hellip; Se sofre de dores frequentes nas cruzes e se tem caruncho nas pernas... Venha &agrave; loja de António Pais de A&ccedil;afr&atilde;o, o mais experimentado e viajado dos comerciantes com negócio na Capital do Reino! Desde as especiarias mais raras da Ásia, &agrave;s mais puras águas de Sintra, tudo encontrará na mais frequentada e melhor apetrechada loja de Lisboa. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Para o povo e fidalguia, a todos servir com esmero! António Pais de A&ccedil;afr&atilde;o, &agrave; Rua Nova dos Mercadores.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Mafalda Capitoa, o que se lhe oferece dizer neste aniversário da &ldquo;Matan&ccedil;a da Pascoela&rdquo;?</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Mafalda Capitoa (MC):</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Eu n&atilde;o tenho nada contra essa gente. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Eu n&atilde;o lido com eles, nem eles me compram peixe porque sabem bem que já os topei há muito. S&atilde;o uns falsos! Mas isso &eacute; lá com eles, n&atilde;o tenho que ver com isso. É com eles e com as suas almas. Deus n&atilde;o &eacute; cego! Ele tratará de os julgar. Por mim, desde que n&atilde;o me chateiem, nem me atrapalhem o negócio... Tudo bem. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Agora, nesse dia da Matan&ccedil;a, eles estavam a pedi-las! Já se dizia por toda a cidade que tinha sido um deles que tinha trazido a peste num barco que veio de Roma! Depois, quando toda a cidade organizava preces e romarias, eles surgiam sempre com cara de poucos amigo e enfadados... É que nem disfar&ccedil;avam! Naquele dia , disse-me a Alzira, minha vizinha, que estava lá em S&atilde;o Domingos, eles fizeram chacota do Espírito Santo que apareceu no altar!! Virgem Santissíma! O que &eacute; que seria de se esperar? Foi o que se sabe: arrastaram-nos &agrave; pra&ccedil;a e entregaram-nos ao Senhor. E Este? Valeu-lhes? Acha que se fossem verdadeiros crist&atilde;os ele teria permitido tamanha perdi&ccedil;&atilde;o?</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Como interpretou a reac&ccedil;&atilde;o d&rsquo;El Rei?</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">MC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> El Rei estava lá longe, em Aviz, longe da peste e mal informado. Os convertidos sempre tiveram amigos importantes na corte. Sempre foi assim, n&atilde;o &eacute; preciso ser-se fidalgo para se saber destas coisas. E assim sendo n&atilde;o lhes foi difícil maldizer o que aconteceu. Quando a notícia chegou aos ouvidos de sua majestade nós já &eacute;ramos pintados de seres diabólicos e traidores! Mas &eacute; assim, o povo de Lisboa já sobreviveu a tormentas bem piores. E o amuo d&rsquo;El Rei já passou há muito tempo! N&atilde;o o viu hoje com o cortejo pela cidade? Estava um po&ccedil;o de sorrisos e boa disposi&ccedil;&atilde;o, home!&nbsp;</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> E voc&ecirc;, Dami&atilde;o Vicente, que pensa deste assunto? Acha possível repetir-se uma matan&ccedil;a como a de há 10 anos?</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Dami&atilde;o Vicente (DV):</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Deus nos livre de repetir tamanho pecado. Pois se El Rei já esqueceu e perdoou, Deus tem a memória mais comprida, senhora peixeira! N&atilde;o traga nos favores das suas preces as almas dos que matámos no meio daquela loucura e depois admire-se do que lhe calhar no Juízo Final! </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Foi coisa de bárbaros, meus senhores! Pois eles n&atilde;o morriam de peste como nós? N&atilde;o traziam no olhar o desespero de quem tinha perdido meia família? E que história &eacute; essa de fazerem chacota do Espírito Santo que apareceu em S&atilde;o Domingos? Eu, com estes, já vi o tal &ldquo;Espirito Santo&rdquo; dezenas de vezes no Mosteiro de S&atilde;o Domingos e já o tinha visto outras tantas antes daquela &eacute;poca! Era um reflexo, sim senhor! E se n&atilde;o fosse? Onde estava a cristandade de amparar quem duvidava, inundando-o com a sabedoria de quem tem f&eacute;? Quem nunca duvidou entre os crist&atilde;os? </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Esta cidade está cheia e a encher por todas as portas! V&ecirc;m do interior, v&ecirc;m de al&eacute;m-mar, t&ecirc;m cores diferentes, diferentes hábitos e saberes... O que será de nós se a todos culparmos do que n&atilde;o sabemos, n&atilde;o conhecemos ou n&atilde;o podemos combater? Como poderá esta ser a capital do mundo e nós o povo de paz e uni&atilde;o que se exige entre os filhos de Deus? Porque todos o somos, &agrave; Sua imagem e semelhan&ccedil;a!</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">MC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Tanto que peleja por t&atilde;o pouca gente, Dami&atilde;o Vicente animador de sua majestade!&nbsp;</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">DV:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Tanto que se resolveu com a Matan&ccedil;a de Pascoela, peixeira de quem lhe aprouver! Por ventura desapareceu a peste?</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">MC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Porventura desapareceram todos os crist&atilde;o-novos da nossa cidade?&nbsp;</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">DV:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> E n&atilde;o tem vossemec&ecirc; nada contra &ldquo;tal gente&rdquo;!!</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Bom, n&atilde;o me cabe a mim ajuizar e considerar sobre as vossas opini&otilde;es, mas penso que os nossos ouvintes já t&ecirc;m dados suficiente para reflectir sobre o que dissestes. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Antes de terminarmos e uma vez que estamos em Lisboa, queria dar-vos a oportunidade, aliás como fazemos em todas as cidades por onde temos passado e com todos os entrevistados que convidamos, queria dar-vos a oportunidade, dizia, de que expressásseis quais os principais problemas da vossa cidade e quais os que gostaríeis de ver resolvidos o mais depressa possível. Mafalda Capitoa.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">MC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Já n&atilde;o &eacute; para falar dos judeus?</span><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">&nbsp;</span></strong></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> N&atilde;o. Diga-nos o que está mal na cidade, na sua opini&atilde;o. Pode ser que algu&eacute;m nos ou&ccedil;a...</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">MC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Olhe o que está mal &eacute; que haja tanto miserável pela cidade. Há por aí gente a morrer pelos cantos que &eacute; um dó. Pois se v&ecirc;em que temos cá escravos que cheguem e que n&atilde;o há quem lhes d&ecirc; ofício, porque insistem em ficar em Lisboa? Sim, que muitos deles v&ecirc;m de fora e cá ficam a apodrecer e a empestar a cidade! El Rei que os ponha fora das muralhas e os mande para o campo que boa falta lá fazem. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Fique a saber que a minha prima Deolinda que esteve numa terrinha perto de Felgueiras me disse que nem bra&ccedil;os havia para tocar o sino! Pois n&atilde;o estava um homem como conv&eacute;m em toda a aldeia, só as mulheres, velhos e crian&ccedil;as! O resto, andava entre portos ou vinha a caminho de Lisboa &agrave; sorte melhor. E depois vemo-los aqui: uns a definharem sem sustento e doentes, outros a estourarem o que t&ecirc;m no vinho ou no jogo, sempre &agrave; porrada... Isto &eacute; que está mal. O lugar deles n&atilde;o &eacute; aqui.&nbsp;</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Dami&atilde;o Vicente...</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">DV:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Ent&atilde;o e a poeirada, os buracos e caboucos novos que aparecem a cada dia n&atilde;o incomodam tanto quanto essa mis&eacute;ria que n&atilde;o &eacute; escolhida mas destinada por estranhos andares do mundo e deste país? Pois se a um lado desses miseráveis se erguem monumentos, mosteiros, conventos e armaz&eacute;ns e ao outro passam fidalgos, senhoritos e at&eacute;, com todo o respeito, peixeiras com corgalhos de escravos atrás, prontos, talvez, para lhes limpar o cu, n&atilde;o acha que isso &eacute; no mínimo igualmente chocante? &nbsp;</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">MC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Ou&ccedil;a lá o seu peixe podre!! Chegue-se aqui que eu mostro-lhe como se amanha um carapau!!</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">DV:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Construa-se, digo eu, que s&atilde;o precisos os hospitais, os mosteiros, conventos, pa&ccedil;o e armaz&eacute;ns. Afinal, esta cidade quer-se digna da nossa fa&ccedil;anha. Mas n&atilde;o se ofusquem com vaidades e brilhos v&atilde;os os de Lisboa e os do país que aqui chegam como moscas ao esterco. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Aprendi que na guerra, no mar e na vida tudo exige equilíbrio e talento. A nau quer-se, e tem de se querer, bem equilibrada antes de se fazer ao mar, pois, de outro modo, n&atilde;o se verá outro porto que o da largada. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Connosco, aqui em Lisboa, o risco &eacute; o mesmo. E o que custa ler as escrituras e de lá tirar estes ensinamentos? Tanto penou Abra&atilde;o pelo seu vale f&eacute;rtil e para qu&ecirc;? Para esbanjá-lo confiando na riqueza de amanh&atilde; só porque foi boa o colheita deste ano? Onde estaríamos sem a riqueza que há-de navegar, sabe-se lá at&eacute; quando, nestas naus que aqui temos &agrave; frente?</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">MC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Tanta palavra vossemec&ecirc; diz que já me tenho tonta, homem! Fico-me com esta: Buscámos, encontrámos. O antigamente já passou. O que v&ecirc; &eacute; bom, por isso, goze-o enquanto cá anda que nisto da vida homem e peixe est&atilde;o sempre a trocar de lugar na ponta do anzol. Quanto ao equilíbrio, o que interessa &eacute; o da balan&ccedil;a da Casa da Índia: que se continuem a p&ocirc;r muitas medidas para chegar &agrave; conta do ouro e da especiaria.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">GC:</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Assim termina mais um Novos Mundos, neste dia 8 de Abril de 1516. Para a semana n&atilde;o haverá programa: estaremos de viagem em direc&ccedil;&atilde;o a Faro onde faremos uma entrevista em exclusivo com o Feitor da Mina em visita ao Algarve. </span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Boa noite e continue com a Portugal FM. Já a seguir e satisfazendo o pedido de vários ouvintes vamos retransmitir a &laquo;Farsa do Velho da Horta&raquo; da autoria de Gil Vicente, gravada há quatros anos no Pa&ccedil;o da Ribeira.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Fim</span></em></strong><br /><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">&nbsp;</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"><u>Dados Estóricos Importantes:</u></span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">-</span><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> </span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Álvaro Torres foi queimado num auto-de f&eacute; em 1541 acusado de heresia.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">- </span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">Dami&atilde;o Vicente foi perseguido pela inquisi&ccedil;&atilde;o e cr&ecirc;-se que tenha fugido para o Brasil onde residiu sob falsa identidade at&eacute; se fixar definitivamente em Nova Amsterd&atilde;o.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">-</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Mafalda Capitoa foi queimada juntamente com as suas quatro criadas escravas num auto-de-f&eacute; em 1541, acusadas de associa&ccedil;&atilde;o com o demónio e bruxaria.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">-</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Gon&ccedil;alo Cortez abandonou Lisboa no ano em que se instaurou o Santo Ofício e passou os seus dias a puxar o sino numa aldeizinha perto de Felgueiras na companhia de uma tal Deolinda que conheceu pouco depois desta entrevista numa das suas viagens pelo país</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">-</span></strong><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;"> Autor está farto de inventar nomes pseudo quinhentista e anda a tentar perceber em que &eacute; que o seu subconsciente se baseou para o consciente agora se perguntar porque &eacute; que o portugu&ecirc;s que colocou na boca de personagens do s&eacute;culo XVI resulta num linguajar t&atilde;o arrevesado.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><em><span style="font-size: 9pt; font-family: arial;">A Matan&ccedil;a da Pascoela ocorreu de facto e &eacute; um episódio histórico tamb&eacute;m conhecido como o Progrom de Lisboa. O texto inspira-se em alguma informa&ccedil;&atilde;o recolhida sobre esse evento. No corrente ano de 2006 comemora-se o cinquentenário deste acontecimento. </span></em></strong></p>]]>
        
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    <title>Escritor de papel</title>
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    <published>2006-01-09T17:15:18Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary>Umas gotas de sangue caíram-me num lenço de papel. Gotas gordas, pesadas. O lenço interrompeu a queda livre com que fugiam do nariz, sem salpicos atrás. Mesmo assim caíram, um pouco, o suficiente para trespassarem o papel num instante, visando...</summary>
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        <name>Rui</name>
        
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            <category term="Contos" />
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/">
        <![CDATA[<p>Umas gotas de sangue caíram-me num lenço de papel. Gotas gordas, pesadas. <br />
O lenço interrompeu a queda livre com que fugiam do nariz, sem salpicos atrás. Mesmo assim caíram, um pouco, o suficiente para trespassarem o papel num instante, visando com a mesma cor compacta o outro lado. </p>

<p>Com outra luz e outro ar seria vermelho vivo, mas debaixo de um candeeiro e já absorvido pela folha branca, o vivo deu lugar ao vermelho seco, quase castanho. <br />
No sítio onde limpei o nariz, após a última perda, vejo agora uma pincelada, um traço a óleo feito de pó de tijolo.</p>

<p>Fico curioso com o desenho que as gotas terão formado através do lenço semi-dobrado. Apartando duas pontas perturbo uma tensão que se criara num segundo: o sangue uniu as finas folhas que formam o lenço e resistem agora juntos ao estender do papel.<br />
Este sangue já não é meu, mas tem uma cor bonita. Não sei que nome lhe dar mas é bonita a cor deste sangue de papel.</p>]]>
        
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    <title>Encostado ao mundo</title>
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    <published>2006-01-05T14:25:38Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary>Quando estava na rua, ao sol, encostado ao muro, sentindo o suave perfume das flores ou o intenso odor dos frutos maduros, dispunha-se a ficar ali para sempre, até ao fim, esperando pacientemente que nunca viesse a sentir que caía...</summary>
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        <name>Rui</name>
        
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    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/">
        <![CDATA[<p>Quando estava na rua, ao sol, encostado ao muro, sentindo o suave perfume das flores ou o intenso odor dos frutos maduros, dispunha-se a ficar ali para sempre, até ao fim, esperando pacientemente que nunca viesse a sentir que caía para o lado. Se pudesse escolher…<br />
Oitenta e um anos. Nunca pensou chegar a velho e afinal ali estava, olhando os torrões de terra, as ervas, as árvores, os pássaros, os montes, o seu campo, no seu canto. Olhava também ao alto mas apenas para procurar nuvens, ou aves, o milhafre, as rolas… O azul imenso das alturas enfastiava-o. </p>

<p>Era um velho, velho por dentro e por fora. Afinal, nada é novo num velho, a menos que esteja vivo.<br />
O corpo rangia, queixava-se, pesava-lhe, rebelava-se. O corpo aprendera a dizer-lhe que não há demasiado tempo. Por sorte… sim, por sorte, a negativa viera sem sobressaltos, progressiva, como um rio de nascentes seguras, oriundo de terras antigas, desenhadas em traços largos. Houve tempo para o compromisso, houve tempo para ir seguindo sempre o seu caminho, conhecer as dores, as limitações, antecipá-las e, em alguns casos, evitá-las descobrindo algumas redundâncias e auxiliares que a natureza lhe revelara no devido tempo. <br />
A pele desaparecera das mãos, dos braços, restava apenas uma ruína denunciada por manchas e crateras que foram proliferando como ervas daninhas. Na face e no pescoço, escondera-se nas suas próprias pregas e rugas, ou então criara a sua própria arte, moldando-se caprichosamente num rosto singular, em permanente mudança.</p>

<p>Era seguro que o seu tempo estava contado, sempre estivera, para quê pensar nisso? Porquê não pensar? Quando se encostava ali, na rua, ao mundo, era imortal. Não era imortal como o são as crianças ou os adolescentes, era imortal como são os que respondem à dificuldade com um olhar no espelho, procurando encontrar a chama que os faz arribar. O pânico da morte que tantas vezes o assaltara quando jovem, era afinal o pânico de estar vivo. Agora, se havia bem que prezava era essa herança que ainda tinha: viver gozando sem dano insuportável até à inexorável partida. </p>

<p>Era um velho e vivia literalmente de memórias, mas não para as memórias. A lembrança da imortalidade juvenil era, quanto muito, combustível para aguentar mais uns minutos encostado ao seu muro, acrescentando paciência à paciência, dando que fazer aos seus sentidos semi-falidos, sorvendo todo o prazer que conseguia retirar do simples facto de ter todo o tempo do mundo para ir onde nunca tinha ido.<br />
Enquanto ali estivesse encostado ao muro, com torrões de terra, ervas, árvores, pássaros e um ou outro fruto maduro a que pudesse lançar a mão, vivia como os ledos dos poemas, acrescentando um novo conto à sua história. Como este.<br />
- - - - <br />
E este é dedicado ao <a href="http://marsalgado.blogspot.com/">Filipe Nunes Vicente do Mar Salgado</a>. Historinha escrita hoje de madrugada depois de ter passado por <a href="http://marsalgado.blogspot.com/2006/01/o-esquecimento-em-saraband-os-anos.html">aqui</a>.</p>]]>
        
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    <title>O Judeu português lá da Rua</title>
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    <published>2006-01-04T11:10:06Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary><![CDATA[Se a Cláudia, reside nas redondezas (Lisboa) e escreve em excelente Ingl&ecirc;s, o Nuno Guerreiro escreve num belíssimo portugu&ecirc;s, directamente dos USA na sua Rua da Judiaria; at&eacute; agora da Califórnia, qualquer dia a partir da Big Apple. A Rua...]]></summary>
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        <name>Rui</name>
        
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            <category term="Sugestões blogolentas" />
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/">
        <![CDATA[<div align="justify">Se a <a href="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/2005/12/_on_the_same_pedestal_on_my_le.html">Cláudia</a>, reside nas redondezas (Lisboa) e escreve em excelente Ingl&ecirc;s, o Nuno Guerreiro escreve num belíssimo portugu&ecirc;s, directamente dos USA na sua <a href="http://ruadajudiaria.com/">Rua da Judiaria</a>; at&eacute; agora da Califórnia, qualquer dia a partir da Big Apple.  </div><div align="justify">A <a href="http://ruadajudiaria.com/">Rua da Judiaria</a> tem como característica central tratar de peda&ccedil;os de história, arte e cultura judaica, particularmente aqueles relacionados com <a href="http://ruadajudiaria.com/index.php?cat=12">Portugal e portugueses</a>, ou seus descendentes, que se viram obrigados ou sentiram o apelo da diáspora. É nestes textos que melhor transparecem algumas das qualidades literárias e a capacidade de síntese e de sedu&ccedil;&atilde;o do autor do blogue - o Nuno &eacute; jornalista. </div><div align="justify">Em suma, a <a href="http://ruadajudiaria.com/">Rua da Judiaria</a> reune, num weblog atraente e criteriosamente ilustrado, textos que merecem ser lidos em <em>slow mode</em>. </div><div align="justify">Uma das últimas pe&ccedil;as que o Nuno Guerreiro nos ofereceu e que serve de pretexto a esta refer&ecirc;ncia &eacute; o post: <a href="http://ruadajudiaria.com/index.php?p=468">O Judeu portugu&ecirc;s que inventou o telefone - 7 de Dezembro</a>. </div><div align="justify">Uma história absolutamente surpreendente que come&ccedil;a assim:</div><div align="justify">&nbsp;</div><div align="justify">&quot;<em>Johann Reis nasceu a 7 de Janeiro de 1834 na pequena cidade de Gelnhausen, próximo de Frankfurt, na Alemanha. O seu pai, Segismundo Reis, um padeiro de parcos recursos, era filho de judeus sefarditas portugueses oriundos da Beira Baixa que emigraram para a Alemanha nos finais do s&eacute;culo XVIII, juntando-se inicialmente &agrave; florescente comunidade de judeus portugueses estabelecidos em Hamburgo.</em></div><div align="justify"><em> Órf&atilde;o de m&atilde;e aos 11 meses, Johann Philipp Reis perdeu tamb&eacute;m o pai quando tinha apenas 10 anos, sendo criado pela avó materna, uma Judia portuguesa extremamente culta e bastante religiosa. Estudante talentoso desde tenra idade, Johann Reis passava horas na biblioteca do col&eacute;gio, o Instituto Hanssell, lendo tudo o que apanhava sobre as suas disciplinas favoritas: geografia, matemática, física e línguas. Um dos seus tios queria fazer dele um comerciante, profiss&atilde;o tradicional na família, mas Johann tinha outras aspira&ccedil;&otilde;es. Aos poucos, pagou do seu bolso aulas privadas de matemática e física e em 1858, um ano antes de casar, aceita a posi&ccedil;&atilde;o de professor de matemática e ci&ecirc;ncias no Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, nos arredores de Frankfurt. </em></div><div align="justify"><em>O caminho que o levaria &agrave; inven&ccedil;&atilde;o do telefone teve início acidentalmente, quando Johann Reis investigava a possível constru&ccedil;&atilde;o de uma &ldquo;orelha artificial&rdquo; (k&uuml;nstliches ohr) para aliviar a surdez &ndash; uma doen&ccedil;a que afectava a sua av&ocirc; beir&atilde;, já em idade avan&ccedil;ada. (...)</em>&quot;  O resto <a href="http://ruadajudiaria.com/index.php?p=468">está aqui</a>. </div>]]>
        
    </content>
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    <title>Deixe a Susana, pela sua saúde!</title>
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    <published>2006-01-02T22:00:37Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary><![CDATA[Deixe a Susana, pela sua saúde! - Um conto com final emprestado - I Talvez por nunca ter resolvido definitivamente a sua primeira paix&atilde;o, talvez porque fora ela a iniciá-lo no tabaco, para ele um cigarro só podia ser feminino,...]]></summary>
    <author>
        <name>Rui</name>
        
    </author>
            <category term="Contos" />
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/">
        <![CDATA[<p align="justify"><strong>Deixe a Susana, pela sua saúde! </strong></p><p align="justify"><strong>- <em>Um conto com final emprestado</em> -</strong>  </p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">I</span></strong></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Talvez por nunca ter resolvido definitivamente a sua primeira paix&atilde;o, talvez porque fora ela a iniciá-lo no tabaco, para ele um cigarro só podia ser feminino, tratava-os todos por Susana. Encontramos Jorge, nervoso, de cara fechada e olhos cinzentos, numa manh&atilde; de Inverno, em errática retrospec&ccedil;&atilde;o, desesperado por beijar novamente Susana.</span></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;<br />Era naquele momento que mais detestava ter o vício do tabaco. Estava enfiado no túnel que liga a esta&ccedil;&atilde;o de Campolide &agrave; do Rossio, num comboio que esperava pacientemente uma quotidiana e inevitável mudan&ccedil;a de agulha para reiniciar a marcha e completar os tr&ecirc;s minutos de percurso que faltavam at&eacute; &agrave; paragem final. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Há mais de meia hora que n&atilde;o fumava mas o que o roía n&atilde;o era tanto o tempo da viagem sem puder fumar, era a ansiedade potenciada pelo sentimento de claustrofobia que o ambiente de sardinha-em-lata iniciava e que a espera no túnel rematavam. Num acto reflexo, quando o comboio abrandou anunciando a paragem no meio do túnel, acotovelou quem foi preciso para colocar a sua face a menos de um palmo da saída mais próxima.</span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Ao soar o apito estridente, avisador da abertura de portas, uma Susana em riste estava já nos seus lábios. Os seus olhos aguardavam de pálpebras semi-cerradas o fumo da queima da mortalha que o isqueiro, bem seguro na m&atilde;o ligeiramente transpirada, desencadeava assim que o nariz transpunha o interior do comboio. O segundo passo no cais da esta&ccedil;&atilde;o era sempre acompanhado pela primeira baforada de fumo expelido, só depois poderia inalar e demorar-se um pouco mais com o cigarro, relaxando finalmente.</span></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;</span><br /><strong><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">II</span></strong></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;<br />Havia dias em que ao acordar o ridículo da situa&ccedil;&atilde;o para que se encaminhava lhe surgia t&atilde;o evidente e a sensa&ccedil;&atilde;o da angústia que experimentaria no túnel t&atilde;o presente que se decidia a pegar no automóvel e enfrentar mais de uma hora de pára-arranca no insuportável Itinerário Complementar Número 19. Curiosamente era raro acender o segundo cigarro durante a viagem de automóvel. Este comportamento tinha tudo de atípico, num ambiente em que cada imobiliza&ccedil;&atilde;o de veículos era motivo para milhares de passas ou para milhares de novos cigarros acesos ao longo dos quase vinte quilómetros de carros em fila. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Ele abria o primeiro pouco depois de fechar a porta de casa, acabava-o assim que o carro saía do seu bairro e seguia viagem levando uma Susana a passear pelo IC 19, esquecida num dos cantos da boca. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">O Alfredo, companheiro acidental da linha de Sintra e colega de trabalho, todo ecologista e especializado em azucrinar a cabe&ccedil;a dos colegas com tiradas aplicadas ao quotidiano, (quase sempre baseadas em teoria económica catada nos canais de notícias da televis&atilde;o por cabo e em visitas frequentes a blogues cheios de opini&otilde;es), n&atilde;o perdia a oportunidade para se meter com ele sempre que percebia que viera de automóvel &ndash; o que costumava coincidir com chegar atrasado. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&ldquo;Ent&atilde;o Jorge, lá deste mais um empurr&atilde;o ao governo, h&atilde;? Olha que a gasolina voltou a subir ontem. É de tipos como tu que o país precisa: trabalhas que nem um mouro por conta de outrem, aliás, para o Estado, no teu cabaz de compras destacam-se o tabaco e o combustível&hellip; Só te falta um carro novo para entrares para o top dos portugueses com a maior carga fiscal. Dá cá um abra&ccedil;o, pá, &eacute;s o meu herói!&rdquo; Dito isto o homem, grande e arredondado, levantava-se da sua secretária e, apanhando o Jorge ainda de p&eacute; a arrumar o casaco, dava-lhe um valente e caloroso abra&ccedil;o que o Jorge retribuía sem má vontade. &ldquo;Continua assim que &eacute; da maneira que o comboio vem mais vazio e eu arranjo lugar para dormir uma sesta. Hoje passei meia viagem a olhar para a capa de revista femininas com a imagem da Deborah Secco e a outra metade dormindo, a sonhar com ela. Sonhos lindos com a Deborah Secco, algures entre Massamá e Benfica! N&atilde;o &eacute; para todos, pá! E tu, viste alguma jeitosa na faixa da direita? Olho o da frente, pá, n&atilde;o te distraías!&rdquo; O Alfredo dizia isto, ou algo parecido, e atirava gargalhadas sempre que terminava uma frase, particularmente de manh&atilde;. Era, contudo, daquelas pessoas a quem o riso assentava como uma remiss&atilde;o: era impossível algu&eacute;m se irritar com ele perante o sorriso goz&atilde;o e as melodiosas gargalhadas cavas que mobilavam uma cara bolachuda de bonacheir&atilde;o. Fosse o Alfredo magricela, dotado de uma vozinha ligeiramente mais aguda e n&atilde;o tivesse ele vencido um cancro no pulm&atilde;o fruto de duas d&eacute;cadas de 5 ma&ccedil;os ao dia e teria tido uma exist&ecirc;ncia bem mais atribulada e, talvez mesmo, mais curta. Assim, passava incólume, disparando puro veneno a uma hora imprópria do dia.</span></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;<br />Desde que se apercebera que fumava menos quando viajava de carro, Jorge arranjara varia&ccedil;&otilde;es inspiradas numa resposta impregnada de ideias feitas, &agrave; altura das teorias do colega. Da última vez em que a cena se repetira saíra-se com esta: &ldquo;Caro Alfredo, vir de carro passou para mim a ser um dos muitos passos de uma terapia para abandonar o tabaco. O comboio cheio de gente, hermeticamente fechado entre esta&ccedil;&otilde;es e de vidros foscos que tapam mais a vista de quem espreita para fora do que ao contrário, cria-me necessidades de nicotina no sangue como mais nada que eu conhe&ccedil;o. Olha para este ma&ccedil;o aberto quando saí de casa. V&ecirc; lá quantos c&ecirc;ntimos &eacute; que ainda n&atilde;o dei ao Estado? Tivesse eu vindo de comboio e teria queimado meio ma&ccedil;o entre o sair do comboio e o chegar aqui. Isto compensa largamente o aumento da gasolina e, como dizes, estou a contribuir para a qualidade de vida dos utentes de transportes públicos, f&atilde;s da Deborah Secco incluídos!&rdquo; </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Dada a resposta, sentavam-se ambos e o Alfredo findava as hostilidades sempre com uma nota do g&eacute;nero: &ldquo;És um bom samaritano, Jorge, já te disse: o meu herói fiscal!&rdquo;</span></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;</span><br /><strong><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">III</span></strong></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;<br />Era no filme habitual das manh&atilde;s no escritório que Jorge pensava enquanto pisava o cigarro terminado, na saída superior da Esta&ccedil;&atilde;o do Rossio. A breve pausa serviu para tomar balan&ccedil;o: preparou-se para rumar ao Bairro Alto subindo a Cal&ccedil;ada do Duque. F&ecirc;-lo em passo ligeiro para testar a sua capacidade pulmonar e ficou satisfeito por n&atilde;o ter tido a necessidade de parar ou abrandar o ritmo ainda que, vencido o obstáculo, lhe tenha passado pela cabe&ccedil;a a leitura irónica do topónimo: afogueado, chegara ao Largo da Misericórdia.</span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Nessa manh&atilde; n&atilde;o iria trabalhar, tirara meio-dia para comprar prendas de Natal para os colegas de trabalho: gulodices para todos, compradas numa lojinha de delicadezas como há poucas no País. Para todos, excepto para o guloso Alfredo a quem iria oferecer &ldquo;O Manual da Pegada Ecológica&rdquo;, um livro grossíssimo de capa abstracta, repleta de gráficos e figuras geom&eacute;tricas, que vira numa noite de copos no Bairro Alto, na montra de uma improvável livraria, entalada entre bares e restaurantes. &ldquo;Para que n&atilde;o te falte teoria &agrave;s oito da manh&atilde;&rdquo; escreveria na dedicatória quando parasse para comer.</span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Tudo lhe correu conforme planeado: comprou as gulodices, depois o pesado tomo, demorando-se a espreitar os dois andares da pequena livraria. De seguida, comeu uma tosta mista e bebeu um gal&atilde;o para enganar o est&ocirc;mago e caminhou a p&eacute;, lentamente, para o escritório, próximo do Marqu&ecirc;s de Pombal. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Fez o percurso em uma hora, entretendo-se com a antecipa&ccedil;&atilde;o da entrega das prendas que sempre lhe dava algum prazer. A tarde daquele dia de Dezembro era habitualmente dedicada &agrave; troca de prendas no escritório - com a excepcional autoriza&ccedil;&atilde;o do senhor director-geral. E a noite terminava com um jantar da malta do servi&ccedil;o, bem comido e bem regado, sempre no &ldquo;Cantinho Fiel&rdquo; em Alfama. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Jorge contava abrir as hostilidades assim que chegasse ao escritório com uma tirada sobre metabolismo, exercício matinal e a influ&ecirc;ncia nefasta dos caminhos-de-ferro no consumo de tabaco: decidiu declarar solenemente que só fumaria nos espa&ccedil;os públicos dos Caminhos-de-Ferro portugueses onde isso n&atilde;o fosse proibido. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Já perto do destino, demorou-se um pouco a observar as bolas redondas da ilumina&ccedil;&atilde;o natalícia que adornavam a Avenida e que permaneciam acesas at&eacute; &agrave;quele momento do dia. Sentou-se num banco da Avenida, puxou do ma&ccedil;o de cigarros, fumou a última Susana que lhe restava e enterrou-se no casaco, gozando um pouco do frio do Inverno que a polui&ccedil;&atilde;o automóvel n&atilde;o conseguiu afastar totalmente do centro da cidade. Antes de retomar a marcha escreveu uma nota mental: tenho que visitar a Afrodite. </span></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;</span><br /><strong><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">IV</span></strong></p><div align="justify">  </div><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">&nbsp;<br />Jorge n&atilde;o chegou a entregar &ldquo;O Manual da Pegada Ecológica&rdquo;. Encontrou o Alfredo morto no átrio dos elevadores que davam acesso ao escritório, agarrado a Afrodite, m&atilde;e de todas as Susanas: a máquina de venda de tabaco que habitava o lugar e que, por uma sucess&atilde;o de eventos caprichosamente alinhados no tempo, veio nesse dia a estar numa condi&ccedil;&atilde;o tal que propiciou a electrocuss&atilde;o do seu colega e amigo.</span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Jorge acabaria o dia sentado no comboio de Sintra, paralisado, repetindo a viagem entre as duas esta&ccedil;&otilde;es terminais, olhando absorto para um automóvel tosco feito de vários ma&ccedil;os de tabaco que lhe ocupava o colo. Finalmente, acordou daquele torpor já a noite ia alta. Saiu na esta&ccedil;&atilde;o certa e, mal p&ocirc;s um p&eacute; na gare, ficou imediatamente encharcado. Uma chuva diluviana amassava aquele canto do país, relembrando-o que estava vivo. O frio da manh&atilde; desaparecera e o martelar contínuo da chuva sobre o corpo n&atilde;o era de todo desconfortável. Abrigou o melhor que pode o automóvel de tabaco debaixo da roupa e dirigiu-se ligeiro para o seu carro que deixara no estacionamento que servia a Esta&ccedil;&atilde;o. Precisava desesperadamente de beijar uma Susana. </span></p><div align="justify">  </div><p align="justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 9pt; line-height: 150%; font-family: arial;">Mas Jorge nunca chegou a fumar nenhuma das Susanas da prenda que o Alfredo tentara terminar nessa manh&atilde;. A &acirc;nsia era imensa, a chuva um len&ccedil;ol pegado, Jorge morreu na contra-m&atilde;o atrapalhando o tráfego.</span></p><p align="justify" class="MsoNormal">&nbsp;</p>]]>
        
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    <title>... on the same pedestal on my left ...</title>
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    <published>2005-12-15T00:00:16Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary>She is Portuguese, lives mainly in Lisbon, Portugal, and writes beautifully, both in English and in Portuguese. She is also a very good amateur photographer. Well, but that’s just my opinion. I think she has a slow blog (I wonder...</summary>
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        <name>Rui</name>
        
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            <category term="Sugestões blogolentas" />
    
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        <![CDATA[<p>She is Portuguese, lives mainly in Lisbon, Portugal, and writes beautifully, both in English and in Portuguese. She is also a very good amateur photographer. Well, but that’s just my opinion. <br />
I think she has a slow blog (I wonder if she agrees with this vague label). She authors “<em><a href="http://claudia.weblog.com.pt/">O Mundo de Claudia</a></em>”, an English written weblog.<br />
I take some time to read it, once in a while. And you, what about spending some minutes enjoying a  “<a href="http://claudia.weblog.com.pt/arquivo/2005/12/winter_sun_1.html">Winter Sun</a>”.</p>

<p>An excerpt:<br />
“<em>(…)I suddenly feel observed. What is this primitive skill humans still have, this alertness that doesn't leave us to rest, like preys waiting to be hunted? I look behind me and between the iron legs of that grotesque statue figure, I see a man with a camera taking a photo. Of the statue? A photo of me? It doesn't matter, by this point I am convinced there is a universal plot against my reading. (…)</em>”</p>]]>
        
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    <title>No tunel</title>
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    <published>2005-12-14T00:30:45Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary><![CDATA[&ldquo;Encerrou o ficheiro sem gravar e demorou-se um pouco olhando a imagem dos Alpes Bernenses que tinha como fundo do computador. Depois, numa sucess&atilde;o de gestos rápidos, mecanizados, p&ocirc;s o antivírus a inspeccionar o disco, desligou o monitor, ajeitou a...]]></summary>
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        <name>Rui</name>
        
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            <category term="Contos" />
    
    <content type="html" xml:lang="pt" xml:base="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/">
        <![CDATA[<p align="justify">&ldquo;<em>Encerrou o ficheiro sem gravar e demorou-se um pouco olhando a imagem dos Alpes Bernenses que tinha como fundo do computador. Depois, numa sucess&atilde;o de gestos rápidos, mecanizados, p&ocirc;s o antivírus a inspeccionar o disco, desligou o monitor, ajeitou a papelada numa resma, enfiou tudo no bloco de gavetas, trancou-o e parou por um instante, olhando a chave que acabou por guardar no bolso. <br /></em></p><img alt="alpes_2005.JPG" src="http://ruicerdeirabranco.weblog.com.pt/alpes_2005.JPG" width=100% vspace=3 /><p align="justify"><em>Levantou-se, agarrou na sacola e no cachecol que tinha pendurado no cabide, dirigiu-se &agrave; porta, abriu-a, desligou o ar condicionado, apagou a luz da sala e ficou na penumbra entre as luzes de presen&ccedil;a do corredor e a noite luminosa da cidade. Da janela próxima via a Avenida repleta de bolas coloridas que tentavam animar o Natal. Meio escondido pelas árvores que acompanhavam a Avenida, via o átrio transparente do pr&eacute;dio de lojas e de escritórios situado em frente ao seu; bem no centro piscavam cadenciadas as luzes de uma árvore de natal, muito verde, muito dourada, muito alta. O c&eacute;u estava tingido de uma cor de n&eacute;on alaranjado, coberto de uma fina película de nuvens refractárias&hellip; &ldquo;Tive sucesso como publicitário porque sou uma pessoa simples&rdquo; murmurou pela primeira e última vez para si próprio convencendo-se definitivamente da vacuidade de todos os lemas e motes de vida. Meteu a m&atilde;o ao bolso e despejou a chave no caixote do lixo que tinha junto &agrave; porta. Há demasiado tempo que n&atilde;o subia ao cimo de uma montanha. Ajeitou o cachecol escondendo parte do sorriso que o surpreendia na face, saiu, fechou a porta e n&atilde;o regressou. Fim.</em>&rdquo;</p><p align="justify">Fechou o livro, pousou-o no colo, sorveu as últimas gotas do pacote de leite com extra-cálcio e sabor a morango que guardou no interior da sua imensa mala de senhora-mo&ccedil;a e olhou pela janela, pela sua janela de vidro fosco. Ali o mundo passava-lhe a alta velocidade, disforme, quase sempre negro, absolutamente negro agora. Olhou o livro, acariciou-lhe as letras da capa, ligeiramente relevadas, e teve desejos de ruminar uma super-gorila. Aconteceu-lhe isto várias vezes desde que na tarde anterior, na esta&ccedil;&atilde;o de Correios, comprara aquele livro fininho, rosa-choque, com letras amarelo el&eacute;ctrico. Há uma tabacaria &agrave; saída da esta&ccedil;&atilde;o dos Restauradores, pensou, tentando preservar um lembrete mental. </p><p align="justify">Geralmente n&atilde;o comprava livros fisicamente t&atilde;o leves. Adorava ir &agrave;s livrarias e levar para casa aut&ecirc;nticos colossos, tipicamente romances históricos, epopeias fantásticas ou <em>thrillers</em> com grande saída, mas naquele momento, nos correios, a espera pela sua vez obrigou-a a uma interminável exposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s cores florescentes do livro, o que veio a produzir nela uma reac&ccedil;&atilde;o hipnótica que se quebrara havia apenas alguns instantes: <em>ajeitou o cachecol escondendo parte do sorriso que o surpreendia na face</em>. </p><p align="justify">Em bom rigor n&atilde;o se recordava de grande coisa desde que come&ccedil;ara a ler o livro, n&atilde;o sabia o que tinha ido fazer aos correios, como tinha regressado a casa, o que jantara, quando se deitara. Lembrava-se apenas de estar a tomar o pequeno-almo&ccedil;o quando retomou a leitura do pouco que restava do livro, e isto acontecera há menos de uma hora. Tamb&eacute;m ent&atilde;o o livro lhe dera desejos de enfiar uma pastilha elástica na boca, a tal ponto que quase cuspiu no prato a última dentada da torrada com manteiga que subitamente lhe pareceu borracha mascada, já sem sabor. </p><p align="justify">Há muitos anos que n&atilde;o lhe acontecia semelhante estado de alma a pretexto da leitura de um livro. Aquele final incerto mas, para ela, cheio de esperan&ccedil;a, divertia-a e acalmava-a, ainda que sentisse algum incómodo perante a sabor sugestionado que trazia na boca e que teimava em persistir, mesmo depois de ter antecipado o leite amorangado com extra-cálcio que guardara na mala instantes antes de sair da casa, com o fito de o reservar intacto at&eacute; &agrave; hora do lanche. O que &eacute; certo &eacute; que iria seguramente procurar mais livros daquele escritor, talvez na mesma tabacaria em que compraria as pastilhas, nos Restauradores.</p><p align="justify">Arrumou o livro na sua mala imensa de senhora-mo&ccedil;a e voltou a olhar a janela escura. </p><p align="justify">&nbsp;</p><p align="justify">O comboio abrandava para dar passagem a outra composi&ccedil;&atilde;o que circulava em sentido contrário. Este ritual diário assinalava que se avizinhavam do final do túnel e da paragem terminal. Funcionava tamb&eacute;m como primeiro aviso de partida para muitos passageiros. Ela desempenhou o seu papel e levantou-se para se aproximar da porta. </p><p align="justify">Em dias normais, a breve pausa do comboio era suficiente para completar esta empresa e ainda ajeitar disfar&ccedil;adamente aquela madeixa teimosa sempre presente no reflexo do vidro da porta. Neste dia por&eacute;m, uma conjuga&ccedil;&atilde;o desfavorável de excesso de passageiros no corredor junto do seu banco e de maior rapidez e brusquid&atilde;o na manobra ferroviária, deixaram-na a meio caminho entre um encosto de assento que se largava com uma m&atilde;o e um corrim&atilde;o vertical que se visava com outra. Quase caiu de quatro no meio do ch&atilde;o. </p><p align="justify">Enquanto duas raparigas se desviaram muito lestas para n&atilde;o lhe prejudicarem a trajectória descendente, o revisor que por ali estava, já junto &agrave; porta, assegurou-lhe a compostura no último momento, puxando-a para ele, agarrando-a por trás e quase a levantando no ar, presa pelas ancas. No entretanto, a imensa mala soltou-se do ombro e ganhou um impulso tal que fez um mortal perfeito de al&ccedil;as encarpadas. No meio da agita&ccedil;&atilde;o, visualizou o espectáculo num bizarro efeito de c&acirc;mara lenta: a sua mala imensa a vogar pelo ar e a aterrar com a abertura para cima. O desfecho lembrou-lhe uma frase curiosa que recordava de uma telenovela brasileira &ldquo;P&atilde;o de pobre quando cai, cai com a manteiga para baixo&rdquo;. Ainda zonza da semi-queda e do enlace, perspectivou com terror o que seria ter de recuperar o conteúdo da sua mala, espalhado pela carruagem, em plena hora de ponta. Murmurou um &ldquo;Devo ser rica!&rdquo; num esfor&ccedil;o de auto-incentivo.</p><p align="justify">Os danos foram mínimos, apenas o livro florescente se libertara na rota&ccedil;&atilde;o da mala e se prostrara no ch&atilde;o, dois metros adiante, para ser de imediato espezinhado pelo cego-pedinte de servi&ccedil;o &agrave; linha de Sintra naquela manh&atilde; que se entretinha a contar o moedário arrecadado durante a viagem, enquanto caminhava inexoravelmente para o final da carruagem.</p><p align="justify">Ela agradeceu ao revisor n&atilde;o se demorando na troca de olhares, apesar da surpresa roborizante - como era alto, possante e negro! -, recuperou de imediato a imensa mala e, com mais esfor&ccedil;o, o livro que entretanto encontrara poiso debaixo de uma fila de assentos já vazios de passageiros. Estes apertavam-se nesse instante contra os vidros das portas aguardando o tiro de partida sob a forma do apito estridente do avisador de abertura de portas. </p><p align="justify">Já de punho bem firme no corrim&atilde;o do corredor espreitou o livro sujo que se abria, vincado, na última página, rasgada. Verificou que tinha agora um novo final: &ldquo;&hellip;<em>enfiou tudo no bloco de gavetas, trancou-o e parou por um instante, olhando a chave que acabou por guardar no bolso.&rdquo;<br /></em></p><p align="justify">O comboio tinha acabado de parar no Rossio.</p><p align="justify">-------------------------</p><p align="justify">Brincadeira primeira dedicada &agrave; <a href="http://100nada.weblog.com.pt/" target="_self">Catarina</a>, ao <a href="http://tugir.blogspot.com/" target="_self">Luís</a> e a <a href="http://claudia.weblog.com.pt/" target="_self">Cláudia</a>.&nbsp;</p>]]>
        
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    <title>Eu tenho um blogue</title>
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    <id>tag:ruicerdeirabranco.weblog.com.pt,2005://1544.141750</id>
    
    <published>2005-12-13T01:22:28Z</published>
    <updated>2006-12-14T10:07:34Z</updated>
    
    <summary>O adufe só pára quando se quedar o coração, mas o coração não resiste à cadência contagiante e permanente do batuque acelerado dos dias. É preciso tempo para esquecer o frenesim e brincar um pouco. Haja tempo para ir navegando...</summary>
    <author>
        <name>Rui</name>
        
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            <category term="Blogosofando" />
    
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        <![CDATA[<p>O <a href="http://adufe.weblog.com.pt/">adufe</a> só pára quando se quedar o coração, mas o coração não resiste à cadência contagiante e permanente do batuque acelerado dos dias. <br />
É preciso tempo para esquecer o frenesim e brincar um pouco. Haja tempo para ir navegando neste blogolento.</p>

<p>Blogolento, um blogue frito em óleo sempre novo.</p>]]>
        
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