Verde Código Troco
(Talvez seja a continuação deste conto, ou talvez não)
Tinha este estranho hábito de ir ao supermercado e pagar sempre a dinheiro. Comprar a roupa, um livro, encher o depósito do carro ou mesmo ir apostar na lotaria, fazia-o recorrendo ao cartão de débito mas quando ia ao supermercado tinha esta mania.
São 21 euros e 30 cêntimos, interpelou-o a caixa.
Faltavam-lhe sempre a serenidade e as mãos para meter os produtos nos sacos, tirar o cartão, digitar números, continuar a arrumar a tralha para logo interromper a tarefa recolhendo o talão e os cartões (o de débito e o cartão de desconto para o estacionamento). Acabava sempre acossado, com as compras atafulhadas à pressa nos sacos quando avançava já sobre ele o cliente seguinte, geralmente com a cara cheia de olhos, reclamando o território que já deixara de lhe pertencer.
Chegava a invejar as famílias que iam às compras e, particularmente, os casais que observava enquanto esperava na fila. Alguns haviam desenvolvido tal técnica que pareciam mais rotinados que os próprios operadores de caixa. A economia de gestos era absoluta, o planeamento cuidado, presente desde logo na forma como os produtos haviam sido arrumados no carro de compras durante a excursão pelos corredores do supermercado. As compras eram dispostas na passadeira rolante da caixa em eficientíssima linha de embalamento taylorista para num ápice tudo estar acondicionado no carro de compras no mais reduzido espaço de carga possível. Haviam variantes é certo, que denunciavam algo sobre a especialização de cada casal. Uns distribuíam a carga equitativamente pela superfície do carro de compras, preocupando-se com a estética dos volumes, outros acumulavam os produtos mais pesados junto ao eixo traseiro pondo a ênfase na massa e no conforto ao empurrar o carrego.
O casal que o antecedera era um desses exemplos típicos, alvo preferencial da sua inveja. Na linha de embalagem, ela abria os sacos e acamava no fundo os primeiros pesos, ele acabava de os encher e guardava-os no carro de compras. Ele apresentava o cartão de pagamento; ela completava com o talão de estacionamento.
Não me arranja 1 euro e 30 cêntimos, voltou a interpelá-lo a caixa.
Depois havia esta parte de fazer troco que o encantava. Lembrava-se sempre de quando ia às compras com a sua mãe. Recordava-se especialmente das idas à feira num tempo em que os cartões de Multibanco eram ainda algo exótico, cujo sucesso futuro alguma mente mais visionária poderia apenas imaginar.
Fazer o troco podia dar azo a casos com os mais diversos desfechos. Desde os mais conciliadores onde, em desespero de causa, vendedores desavindos se viam forçados a recorrer, com humildade disfarçada por interjeições ríspidas, aos préstimos alheios, até a verdadeiras altercações entre compradores e vendedores, reclamando estes últimos da falta de dinheiro trocado por parte da clientela que parecia toda acabada de sair da fila do banco com as carteiras habitadas apenas por notas de conto ou mais.
Olhou o porta-moedas e encontrou a quantia pedida. Ganhou na volta um genuíno sorriso de agrado a acompanhar a nota de troco e o talão das compras.
Pegou nos dois sacos e seguiu animado rumo à luz da rua.