O Suplício de Tântalo
I
Splat! Mesmo no cocuruto da cabeça! Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo, oferecendo-lhe um desconforto momentâneo, estupidamente desproporcionado face à dimensão da gota de água gelada. Uma mini gota na realidade pois apesar do cabelo que lhe povoava a cabeça ser quase inexistente, esta dissipou-se sem encontrar o destino das da sua espécie: esborrachar-se nas pedras da calçada de Lisboa.
O aguaceiro passara havia poucos minutos e a cidade brilhava agora iluminada pelo sol de Dezembro. O frenesim da hora de almoço tomava conta do bairro com os edifícios de escritórios a despejarem na rua funcionários que haviam aguardado pacientemente por um intervalo nas hostilidades climatéricas.
Em contrapartida, o movimento automóvel parecia mais de um Domingo quando, de facto, se caminhava para o meio-dia de uma sexta-feira. Na véspera fora feriado e, apesar do temporal intermitente que durava há alguns dias, a cada vez mais ténue lembrança do Verão fazia as suas mossas levando algum povo da cidade e arredores a mudar de ares.
“De hoje a oito estou na santa terrinha a apanhar azeitonas”, pensava o aluno do Técnico que acabara há pouco as aulas. “Porra para isto! Esqueci-me outra vez de trazer as botas para o sapateiro!”, murmurava imperceptivelmente uma mulher de fato cinzento que saia apressada do banco ali ao lado. “Ainda ontem enchi o depósito e hoje baixam o preço. Vou passar a meter só 10 € de cada vez”, cogitava um motociclista de fones nos ouvidos e de impermeável multicolor florescente que esperava o sinal verde. “Ai!” deverá ter exclamado um miúdo com cerca de 10 anos que, de sacola às costas, se reequilibrava do bate-cu que dera no passeio do outro lado da estrada, já à porta do prédio fino, onde teria o almoço feito pela ama à sua espera. Deverá ter exclamado porque entretanto o motociclista acelerou e encheu de fumo e de ruído aquele canto da cidade. Era nisto que pensavam os vizinhos ocasionais do nosso personagem pingado. Ou pelo menos era isto que ele julgava pensarem, enquanto observava os passantes, escondido da cidade num abrigo formado por uma árvore antiga de tronco generoso e pela tenda de Inverno da esplanada de um café.
Ligeiramente aborrecido resolveu mirar as caleiras gotejantes de onde se desprendera a gota irritante, detendo-se, com o pescoço bem dobrado, surpreso e um pouco ofuscado pela luminosidade das paredes brilhantes. De olhos semicerrados, o que via era a dança de pérolas de água caindo quase sempre mas errando também ao sabor de caprichosas correntes de ar que acompanhavam o edifício e que por vezes retardavam o acorde final que findava a dança de cada bailarina junto às pedras da calçada. No último instante antes de receber novo baptismo, desta vez bem no meio da testa, decidiu aproximar-se da protecção da parede do prédio; esperava pacientemente a sua vez para levantar dinheiro na caixa Multibanco.
II
De súbito, começaram a chover moedas que saltitaram no chão até aos pés do nosso paciente personagem, todas aparentemente despejadas no solo pela carteira da mulher do Multibanco que sacava definitivamente o cartão e virava costas em passo ligeiro e com gestos agitados, desinteressada do dinheiro. Pareceu-lhe vislumbrar uns óculos escuros, o resto que viu foi o padrão ondulado, em tons de creme, do guarda-chuva que se manteve aberto sob o agora radioso abraço solar.
Só moedas de cinco cêntimos ao que parecia, do alto do seu metro e setenta e cinco; dobrou-se a amealhou-as. 20 cêntimos, meio pacote de bolachas Maria.
(Talvez continue, quem sabe. )