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Encostado ao mundo

Quando estava na rua, ao sol, encostado ao muro, sentindo o suave perfume das flores ou o intenso odor dos frutos maduros, dispunha-se a ficar ali para sempre, até ao fim, esperando pacientemente que nunca viesse a sentir que caía para o lado. Se pudesse escolher…
Oitenta e um anos. Nunca pensou chegar a velho e afinal ali estava, olhando os torrões de terra, as ervas, as árvores, os pássaros, os montes, o seu campo, no seu canto. Olhava também ao alto mas apenas para procurar nuvens, ou aves, o milhafre, as rolas… O azul imenso das alturas enfastiava-o.

Era um velho, velho por dentro e por fora. Afinal, nada é novo num velho, a menos que esteja vivo.
O corpo rangia, queixava-se, pesava-lhe, rebelava-se. O corpo aprendera a dizer-lhe que não há demasiado tempo. Por sorte… sim, por sorte, a negativa viera sem sobressaltos, progressiva, como um rio de nascentes seguras, oriundo de terras antigas, desenhadas em traços largos. Houve tempo para o compromisso, houve tempo para ir seguindo sempre o seu caminho, conhecer as dores, as limitações, antecipá-las e, em alguns casos, evitá-las descobrindo algumas redundâncias e auxiliares que a natureza lhe revelara no devido tempo.
A pele desaparecera das mãos, dos braços, restava apenas uma ruína denunciada por manchas e crateras que foram proliferando como ervas daninhas. Na face e no pescoço, escondera-se nas suas próprias pregas e rugas, ou então criara a sua própria arte, moldando-se caprichosamente num rosto singular, em permanente mudança.

Era seguro que o seu tempo estava contado, sempre estivera, para quê pensar nisso? Porquê não pensar? Quando se encostava ali, na rua, ao mundo, era imortal. Não era imortal como o são as crianças ou os adolescentes, era imortal como são os que respondem à dificuldade com um olhar no espelho, procurando encontrar a chama que os faz arribar. O pânico da morte que tantas vezes o assaltara quando jovem, era afinal o pânico de estar vivo. Agora, se havia bem que prezava era essa herança que ainda tinha: viver gozando sem dano insuportável até à inexorável partida.

Era um velho e vivia literalmente de memórias, mas não para as memórias. A lembrança da imortalidade juvenil era, quanto muito, combustível para aguentar mais uns minutos encostado ao seu muro, acrescentando paciência à paciência, dando que fazer aos seus sentidos semi-falidos, sorvendo todo o prazer que conseguia retirar do simples facto de ter todo o tempo do mundo para ir onde nunca tinha ido.
Enquanto ali estivesse encostado ao muro, com torrões de terra, ervas, árvores, pássaros e um ou outro fruto maduro a que pudesse lançar a mão, vivia como os ledos dos poemas, acrescentando um novo conto à sua história. Como este.
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E este é dedicado ao Filipe Nunes Vicente do Mar Salgado. Historinha escrita hoje de madrugada depois de ter passado por aqui.

Comments

Meu caro Rui!

Constato que esta viagem continua, inspirada e de linhas escorreitas.
É sempre um grande prazer, encontrar bons contos na blogosfera.
Um abraço.

Parece que si, que continua PiresF, umas vezes melhor outras pior. Aliás este blogue não respeita uma das regras sagradas da blogoesfera: aqui os textos nunca são definitivos.
Volta sempre.
Um abraço!

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