Deixe a Susana, pela sua saúde!
Deixe a Susana, pela sua saúde!
- Um conto com final emprestado -
I
Talvez por nunca ter resolvido definitivamente a sua primeira paixão, talvez porque fora ela a iniciá-lo no tabaco, para ele um cigarro só podia ser feminino, tratava-os todos por Susana. Encontramos Jorge, nervoso, de cara fechada e olhos cinzentos, numa manhã de Inverno, em errática retrospecção, desesperado por beijar novamente Susana.
Era naquele momento que mais detestava ter o vício do tabaco. Estava enfiado no túnel que liga a estação de Campolide à do Rossio, num comboio que esperava pacientemente uma quotidiana e inevitável mudança de agulha para reiniciar a marcha e completar os três minutos de percurso que faltavam até à paragem final.
Há mais de meia hora que não fumava mas o que o roía não era tanto o tempo da viagem sem puder fumar, era a ansiedade potenciada pelo sentimento de claustrofobia que o ambiente de sardinha-em-lata iniciava e que a espera no túnel rematavam. Num acto reflexo, quando o comboio abrandou anunciando a paragem no meio do túnel, acotovelou quem foi preciso para colocar a sua face a menos de um palmo da saída mais próxima.
Ao soar o apito estridente, avisador da abertura de portas, uma Susana em riste estava já nos seus lábios. Os seus olhos aguardavam de pálpebras semi-cerradas o fumo da queima da mortalha que o isqueiro, bem seguro na mão ligeiramente transpirada, desencadeava assim que o nariz transpunha o interior do comboio. O segundo passo no cais da estação era sempre acompanhado pela primeira baforada de fumo expelido, só depois poderia inalar e demorar-se um pouco mais com o cigarro, relaxando finalmente.
II
Havia dias em que ao acordar o ridículo da situação para que se encaminhava lhe surgia tão evidente e a sensação da angústia que experimentaria no túnel tão presente que se decidia a pegar no automóvel e enfrentar mais de uma hora de pára-arranca no insuportável Itinerário Complementar Número 19. Curiosamente era raro acender o segundo cigarro durante a viagem de automóvel. Este comportamento tinha tudo de atípico, num ambiente em que cada imobilização de veículos era motivo para milhares de passas ou para milhares de novos cigarros acesos ao longo dos quase vinte quilómetros de carros em fila.
Ele abria o primeiro pouco depois de fechar a porta de casa, acabava-o assim que o carro saía do seu bairro e seguia viagem levando uma Susana a passear pelo IC 19, esquecida num dos cantos da boca.
O Alfredo, companheiro acidental da linha de Sintra e colega de trabalho, todo ecologista e especializado em azucrinar a cabeça dos colegas com tiradas aplicadas ao quotidiano, (quase sempre baseadas em teoria económica catada nos canais de notícias da televisão por cabo e em visitas frequentes a blogues cheios de opiniões), não perdia a oportunidade para se meter com ele sempre que percebia que viera de automóvel – o que costumava coincidir com chegar atrasado.
“Então Jorge, lá deste mais um empurrão ao governo, hã? Olha que a gasolina voltou a subir ontem. É de tipos como tu que o país precisa: trabalhas que nem um mouro por conta de outrem, aliás, para o Estado, no teu cabaz de compras destacam-se o tabaco e o combustível… Só te falta um carro novo para entrares para o top dos portugueses com a maior carga fiscal. Dá cá um abraço, pá, és o meu herói!” Dito isto o homem, grande e arredondado, levantava-se da sua secretária e, apanhando o Jorge ainda de pé a arrumar o casaco, dava-lhe um valente e caloroso abraço que o Jorge retribuía sem má vontade. “Continua assim que é da maneira que o comboio vem mais vazio e eu arranjo lugar para dormir uma sesta. Hoje passei meia viagem a olhar para a capa de revista femininas com a imagem da Deborah Secco e a outra metade dormindo, a sonhar com ela. Sonhos lindos com a Deborah Secco, algures entre Massamá e Benfica! Não é para todos, pá! E tu, viste alguma jeitosa na faixa da direita? Olho o da frente, pá, não te distraías!” O Alfredo dizia isto, ou algo parecido, e atirava gargalhadas sempre que terminava uma frase, particularmente de manhã. Era, contudo, daquelas pessoas a quem o riso assentava como uma remissão: era impossível alguém se irritar com ele perante o sorriso gozão e as melodiosas gargalhadas cavas que mobilavam uma cara bolachuda de bonacheirão. Fosse o Alfredo magricela, dotado de uma vozinha ligeiramente mais aguda e não tivesse ele vencido um cancro no pulmão fruto de duas décadas de 5 maços ao dia e teria tido uma existência bem mais atribulada e, talvez mesmo, mais curta. Assim, passava incólume, disparando puro veneno a uma hora imprópria do dia.
Desde que se apercebera que fumava menos quando viajava de carro, Jorge arranjara variações inspiradas numa resposta impregnada de ideias feitas, à altura das teorias do colega. Da última vez em que a cena se repetira saíra-se com esta: “Caro Alfredo, vir de carro passou para mim a ser um dos muitos passos de uma terapia para abandonar o tabaco. O comboio cheio de gente, hermeticamente fechado entre estações e de vidros foscos que tapam mais a vista de quem espreita para fora do que ao contrário, cria-me necessidades de nicotina no sangue como mais nada que eu conheço. Olha para este maço aberto quando saí de casa. Vê lá quantos cêntimos é que ainda não dei ao Estado? Tivesse eu vindo de comboio e teria queimado meio maço entre o sair do comboio e o chegar aqui. Isto compensa largamente o aumento da gasolina e, como dizes, estou a contribuir para a qualidade de vida dos utentes de transportes públicos, fãs da Deborah Secco incluídos!”
Dada a resposta, sentavam-se ambos e o Alfredo findava as hostilidades sempre com uma nota do género: “És um bom samaritano, Jorge, já te disse: o meu herói fiscal!”
III
Era no filme habitual das manhãs no escritório que Jorge pensava enquanto pisava o cigarro terminado, na saída superior da Estação do Rossio. A breve pausa serviu para tomar balanço: preparou-se para rumar ao Bairro Alto subindo a Calçada do Duque. Fê-lo em passo ligeiro para testar a sua capacidade pulmonar e ficou satisfeito por não ter tido a necessidade de parar ou abrandar o ritmo ainda que, vencido o obstáculo, lhe tenha passado pela cabeça a leitura irónica do topónimo: afogueado, chegara ao Largo da Misericórdia.
Nessa manhã não iria trabalhar, tirara meio-dia para comprar prendas de Natal para os colegas de trabalho: gulodices para todos, compradas numa lojinha de delicadezas como há poucas no País. Para todos, excepto para o guloso Alfredo a quem iria oferecer “O Manual da Pegada Ecológica”, um livro grossíssimo de capa abstracta, repleta de gráficos e figuras geométricas, que vira numa noite de copos no Bairro Alto, na montra de uma improvável livraria, entalada entre bares e restaurantes. “Para que não te falte teoria às oito da manhã” escreveria na dedicatória quando parasse para comer.
Tudo lhe correu conforme planeado: comprou as gulodices, depois o pesado tomo, demorando-se a espreitar os dois andares da pequena livraria. De seguida, comeu uma tosta mista e bebeu um galão para enganar o estômago e caminhou a pé, lentamente, para o escritório, próximo do Marquês de Pombal.
Fez o percurso em uma hora, entretendo-se com a antecipação da entrega das prendas que sempre lhe dava algum prazer. A tarde daquele dia de Dezembro era habitualmente dedicada à troca de prendas no escritório - com a excepcional autorização do senhor director-geral. E a noite terminava com um jantar da malta do serviço, bem comido e bem regado, sempre no “Cantinho Fiel” em Alfama.
Jorge contava abrir as hostilidades assim que chegasse ao escritório com uma tirada sobre metabolismo, exercício matinal e a influência nefasta dos caminhos-de-ferro no consumo de tabaco: decidiu declarar solenemente que só fumaria nos espaços públicos dos Caminhos-de-Ferro portugueses onde isso não fosse proibido.
Já perto do destino, demorou-se um pouco a observar as bolas redondas da iluminação natalícia que adornavam a Avenida e que permaneciam acesas até àquele momento do dia. Sentou-se num banco da Avenida, puxou do maço de cigarros, fumou a última Susana que lhe restava e enterrou-se no casaco, gozando um pouco do frio do Inverno que a poluição automóvel não conseguiu afastar totalmente do centro da cidade. Antes de retomar a marcha escreveu uma nota mental: tenho que visitar a Afrodite.
IV
Jorge não chegou a entregar “O Manual da Pegada Ecológica”. Encontrou o Alfredo morto no átrio dos elevadores que davam acesso ao escritório, agarrado a Afrodite, mãe de todas as Susanas: a máquina de venda de tabaco que habitava o lugar e que, por uma sucessão de eventos caprichosamente alinhados no tempo, veio nesse dia a estar numa condição tal que propiciou a electrocussão do seu colega e amigo.
Jorge acabaria o dia sentado no comboio de Sintra, paralisado, repetindo a viagem entre as duas estações terminais, olhando absorto para um automóvel tosco feito de vários maços de tabaco que lhe ocupava o colo. Finalmente, acordou daquele torpor já a noite ia alta. Saiu na estação certa e, mal pôs um pé na gare, ficou imediatamente encharcado. Uma chuva diluviana amassava aquele canto do país, relembrando-o que estava vivo. O frio da manhã desaparecera e o martelar contínuo da chuva sobre o corpo não era de todo desconfortável. Abrigou o melhor que pode o automóvel de tabaco debaixo da roupa e dirigiu-se ligeiro para o seu carro que deixara no estacionamento que servia a Estação. Precisava desesperadamente de beijar uma Susana.
Mas Jorge nunca chegou a fumar nenhuma das Susanas da prenda que o Alfredo tentara terminar nessa manhã. A ânsia era imensa, a chuva um lençol pegado, Jorge morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego.
Comments
O meu amigo não é de meias medidas.
Cada romance, cada morte e quando se esperava que a morte viesse pela exaustão de tanta Susana, é a Afrodite, em intensa volúpia eléctrica que atira o desgraçado para a cova.
Razão têm os espanhóis... :)
Posted by: LNT | janeiro 5, 2006 01:19 AM
Uma desgraça pegada! Um dramalhão. Enfim, divirto-me. Vamos lá ver é de pelo caminho aprendo alguma coisa :-)
Posted by: Rui MCB | janeiro 5, 2006 01:49 AM
Se a Susana visse cada cigarro como um Jorge isto tinha um potencial erótico enorme....:-)
Posted by: claudia | janeiro 8, 2006 08:51 PM
:-) Já que pegas no assunto... Convenhamos que é preciso algum esforço para acreditar que um cigarro é algo que só pode personificar a mulher como o Jorge quer fazer crer. Um cigarro é um falo, ponto final. Não tão imponente quanto um charuto, mas cada um serve-se com o que tem. não é verdade?
Fumar um cigarro já é diferente, já entram os lábios ao barulho e o cigarro pode passar a ser outra coisa. Foi assim que o Jorge chegou às Susanas. Mas dentro do maço ou antes de puxar a primeira passa não há Susanas para ninguém. Que te parece? O cigarro é macho mas pode mudar de sexo... Já dei cabo do erotismo todo da coisa, está visto!
Posted by: Rui MCB | janeiro 8, 2006 09:30 PM