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janeiro 30, 2006

Como uma pluma

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Ouvem-se os passos, só os passos. A gente aperta-se, sem pressas, sem empurrões, numa ordem que só se consegue pela disciplina ou pela apatia.

Milhares de passos de milhares de pessoas. Descemos os degraus, tantos degraus, desde o topo da bancada, literalmente desde as luzes da ribalta até às entranhas dos bastidores.

Na rua recebe-nos o lixo dos preliminares: os restos dos cachorros quentes, dos couratos, da cerveja e algumas bandeirinhas de uso efémero que nos ofereceram à entrada. Chegados ali, vamo-nos apagando como brasas que se separam numa fogueira… É nessa altura que o frio nos assalta que a chuva se torna inclemente. É então que a derrota é mais nossa.

Haja o aconchego de um cachecol, pintado com as nossas cores, sempre ao pescoço, sem vergonha. Para uns como uma cicatriz, para outros como uma pluma.

Hoje tenho uma pluma em casa. 

janeiro 19, 2006

Verde Código Troco

(Talvez seja a continuação deste conto, ou talvez não)

Tinha este estranho hábito de ir ao supermercado e pagar sempre a dinheiro. Comprar a roupa, um livro, encher o depósito do carro ou mesmo ir apostar na lotaria, fazia-o recorrendo ao cartão de débito mas quando ia ao supermercado tinha esta mania.

São 21 euros e 30 cêntimos, interpelou-o a caixa.

Faltavam-lhe sempre a serenidade e as mãos para meter os produtos nos sacos, tirar o cartão, digitar números, continuar a arrumar a tralha para logo interromper a tarefa recolhendo o talão e os cartões (o de débito e o cartão de desconto para o estacionamento). Acabava sempre acossado, com as compras atafulhadas à pressa nos sacos quando avançava já sobre ele o cliente seguinte, geralmente com a cara cheia de olhos, reclamando o território que já deixara de lhe pertencer.

Chegava a invejar as famílias que iam às compras e, particularmente, os casais que observava enquanto esperava na fila. Alguns haviam desenvolvido tal técnica que pareciam mais rotinados que os próprios operadores de caixa. A economia de gestos era absoluta, o planeamento cuidado, presente desde logo na forma como os produtos haviam sido arrumados no carro de compras durante a excursão pelos corredores do supermercado. As compras eram dispostas na passadeira rolante da caixa em eficientíssima linha de embalamento taylorista para num ápice tudo estar acondicionado no carro de compras no mais reduzido espaço de carga possível. Haviam variantes é certo, que denunciavam algo sobre a especialização de cada casal. Uns distribuíam a carga equitativamente pela superfície do carro de compras, preocupando-se com a estética dos volumes, outros acumulavam os produtos mais pesados junto ao eixo traseiro pondo a ênfase na massa e no conforto ao empurrar o carrego.

O casal que o antecedera era um desses exemplos típicos, alvo preferencial da sua inveja. Na linha de embalagem, ela abria os sacos e acamava no fundo os primeiros pesos, ele acabava de os encher e guardava-os no carro de compras. Ele apresentava o cartão de pagamento; ela completava com o talão de estacionamento.

Não me arranja 1 euro e 30 cêntimos, voltou a interpelá-lo a caixa.

Depois havia esta parte de fazer troco que o encantava. Lembrava-se sempre de quando ia às compras com a sua mãe. Recordava-se especialmente das idas à feira num tempo em que os cartões de Multibanco eram ainda algo exótico, cujo sucesso futuro alguma mente mais visionária poderia apenas imaginar.

Fazer o troco podia dar azo a casos com os mais diversos desfechos. Desde os mais conciliadores onde, em desespero de causa, vendedores desavindos se viam forçados a recorrer, com humildade disfarçada por interjeições ríspidas, aos préstimos alheios, até a verdadeiras altercações entre compradores e vendedores, reclamando estes últimos da falta de dinheiro trocado por parte da clientela que parecia toda acabada de sair da fila do banco com as carteiras habitadas apenas por notas de conto ou mais.

Olhou o porta-moedas e encontrou a quantia pedida. Ganhou na volta um genuíno sorriso de agrado a acompanhar a nota de troco e o talão das compras.

Pegou nos dois sacos e seguiu animado rumo à luz da rua.

janeiro 18, 2006

A Irmandade dos Anéis

Eis um blogue muito peculiar que pertence a uma casta sem nome, mas muito bem definida: Sociedade Anónima - A Irmandande dos Anéis.
Ainda que transgrida quase todos os dias em excesso de velocidade, gosto de lá passar como se fosse um blogolento, um slow blog, um que se lê com tempo, de vez em quando, como quem saboreia um prato delicioso que se quer fazer durar.

janeiro 17, 2006

O Suplício de Tântalo

I

Splat! Mesmo no cocuruto da cabeça! Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo, oferecendo-lhe um desconforto momentâneo, estupidamente desproporcionado face à dimensão da gota de água gelada. Uma mini gota na realidade pois apesar do cabelo que lhe povoava a cabeça ser quase inexistente, esta dissipou-se sem encontrar o destino das da sua espécie: esborrachar-se nas pedras da calçada de Lisboa.

O aguaceiro passara havia poucos minutos e a cidade brilhava agora iluminada pelo sol de Dezembro. O frenesim da hora de almoço tomava conta do bairro com os edifícios de escritórios a despejarem na rua funcionários que haviam aguardado pacientemente por um intervalo nas hostilidades climatéricas.

Em contrapartida, o movimento automóvel parecia mais de um Domingo quando, de facto, se caminhava para o meio-dia de uma sexta-feira. Na véspera fora feriado e, apesar do temporal intermitente que durava há alguns dias, a cada vez mais ténue lembrança do Verão fazia as suas mossas levando algum povo da cidade e arredores a mudar de ares.

“De hoje a oito estou na santa terrinha a apanhar azeitonas”, pensava o aluno do Técnico que acabara há pouco as aulas. “Porra para isto! Esqueci-me outra vez de trazer as botas para o sapateiro!”, murmurava imperceptivelmente uma mulher de fato cinzento que saia apressada do banco ali ao lado. “Ainda ontem enchi o depósito e hoje baixam o preço. Vou passar a meter só 10 € de cada vez”, cogitava um motociclista de fones nos ouvidos e de impermeável multicolor florescente que esperava o sinal verde. “Ai!” deverá ter exclamado um miúdo com cerca de 10 anos que, de sacola às costas, se reequilibrava do bate-cu que dera no passeio do outro lado da estrada, já à porta do prédio fino, onde teria o almoço feito pela ama à sua espera. Deverá ter exclamado porque entretanto o motociclista acelerou e encheu de fumo e de ruído aquele canto da cidade. Era nisto que pensavam os vizinhos ocasionais do nosso personagem pingado. Ou pelo menos era isto que ele julgava pensarem, enquanto observava os passantes, escondido da cidade num abrigo formado por uma árvore antiga de tronco generoso e pela tenda de Inverno da esplanada de um café.

Ligeiramente aborrecido resolveu mirar as caleiras gotejantes de onde se desprendera a gota irritante, detendo-se, com o pescoço bem dobrado, surpreso e um pouco ofuscado pela luminosidade das paredes brilhantes. De olhos semicerrados, o que via era a dança de pérolas de água caindo quase sempre mas errando também ao sabor de caprichosas correntes de ar que acompanhavam o edifício e que por vezes retardavam o acorde final que findava a dança de cada bailarina junto às pedras da calçada. No último instante antes de receber novo baptismo, desta vez bem no meio da testa, decidiu aproximar-se da protecção da parede do prédio; esperava pacientemente a sua vez para levantar dinheiro na caixa Multibanco.

II

Estou fodida com esta merda! Isto sim, era algo bem audível e inquestionável ao nosso personagem de cabeça pingada. A exaltação viera da mulher que estava à sua frente a usar o Multibanco, abrigada do pinga-telhado pelo guarda-chuva. Já há algum tempo que ele esperava vez e a seguir à exaltação percebeu que se enfiava um cartão na máquina para nova operação. Com gestos bruscos, a mulher martelou o teclado do aparelho enquanto condimentou o ataque de nervos com mais umas palavras dignas dos melhores recreios de uma qualquer escola secundária da periferia de Lisboa. Como são disponíveis e generosas as caixas Multibanco quando comparadas com os seus colegas caixas de banco feitos de carne e osso.

De súbito, começaram a chover moedas que saltitaram no chão até aos pés do nosso paciente personagem, todas aparentemente despejadas no solo pela carteira da mulher do Multibanco que sacava definitivamente o cartão e virava costas em passo ligeiro e com gestos agitados, desinteressada do dinheiro. Pareceu-lhe vislumbrar uns óculos escuros, o resto que viu foi o padrão ondulado, em tons de creme, do guarda-chuva que se manteve aberto sob o agora radioso abraço solar.

Só moedas de cinco cêntimos ao que parecia, do alto do seu metro e setenta e cinco; dobrou-se a amealhou-as. 20 cêntimos, meio pacote de bolachas Maria.

(Talvez continue, quem sabe. )

janeiro 11, 2006

Os 500 anos do Progrom de Lisboa

Numa entrada recente no Miniscente (blog onde encontrei a imagem que aqui reproduzo), Luís Carmelo lembrou que se comemora neste ano o cinquentenário do Progrom de Lisboa, mais precisamente no dia 8 de Abril de 2006. Recupero aqui, no Blogolento, um texto original de 1998 escrito como consequência de minha absoluta ignorância sobre o assunto à altura. Uma ignorância de que despertei lendo um artigo de um colaborador do Diário de Notícias. Este texto - já publicado no Adufe em 15 de Agosto de 2003 - foi ligeiramente revisto há poucos instantes.


Excerto da emissão radiofónica de 8 de Abril de 1516, da Portugal FM Real Emissora Nacional

 «A Portugal FM apresenta:

Novos Mundos - Espaço de informação e debate com Gonçalo Cortez.

Gonçalo Cortez (GC): Muito boa tarde senhores ouvintes. Inicia-se mais uma edição de Novos Mundos, desta feita em directo da Ribeira de Lisboa. À nossa frente está fundeada e pronta para zarpar a primeira frota portuguesa a demandar o caminho da India neste ano da graça de 1516.

A azáfama visível no cais é bem característica dos últimos preparativos para aquela que se espera mais uma proveitosa empresa para o reino e para o distinto capitão, sendo este, se não estou falho de memória, D. Lopo de Orgens. Como pano de fundo para o nosso espaço de entrevista temos o grandioso Paço da Ribeira onde a corte prepara uma festa de Boa Fortuna em homenagem aos marinheiros, prestada na pessoa do seu capitão.

Ainda há poucos instante tivemos oportunidade de saudar El Rei e sua esplendorosa comitiva, quando este terminou mais um dos seus tradicionais passeios pela capital. Saiba-se que D. Manuel se mostrou em sedosos panos de tom azul-marinho pontuados com pequenos adornos dourados e cintilantes que não nos foi possível classificar. Sua majestade revelou um sorriso constante, apresentava um semblante calmo e um olhar confiante.

Voltaremos dentro de momentos para vos apresentar os entrevistados de hoje. Fique connosco, somos a Portugal FM.

Publicidade: Grande venda de escravos do Mestre André! Amanhã, na praça do Pelourinho Velho. Lotes de 2, 4 e 6 escravos servis e qualificados para todas as tarefas! Em apresentação machos e fêmeas provenientes da melhor terra de Africa. Você merece! A venda terá lugar de manhã, pelas dez horas. Não se arrependa depois, apareça! Olhe que o seu vizinho vai estar lá!...

GC: Ao meu lado tenho os dois entrevistados de hoje, ambos são lisboetas e ambos se passeavam aqui pela Ribeira há cerca de uma hora, altura em que os interpelámos e convidámos a participarem na nossa entrevista semanal. À minha direita tenho Damião Vicente, de 26 anos. Damião foi antigo soldado na Índia com D. Francisco de Almeida, escriba de alugo no Pelouro Velho durante um ano e, de momento, é animador da corte, colaborando com Gil Vicente com quem, realce-se, não tem laços familiares.

À minha esquerda tenho Mafalda Capitoa, de 29 anos, peixeira no mercado da ribeira desde que se lembra.

Agradeço a disponibilidade de vossas mercês para estarem presentes nesta entrevista.

O assunto principal que pretendo abordar é a “Matança de Pascoela” sobre a qual se comemoram hoje precisamente 10 anos. Antes de vos pedir opinião e de fazermos o balanço da situação nestes dias, proponho que ouçamos uma peça preparada por Álvaro Torres sobre o massacre de há dez anos...

AT: Em Abril de 1506 a cidade de Lisboa vivia os horrores da peste e da impotência. Os habitantes procuravam através de rituais e cerimónias sagradas manter a fé. Reforçavam-se os apelos à misericórdia divina.

No dia 8 desse mês, comemorou-se o Domingo de Pascoela. Por toda a cidade se realizaram procissões e serviços religiosos em memória dos que haviam sido levados pela doença e em favor dos pecadores que aos milhares rogavam por vida sã.

Segundo mais tarde apuraram os conselheiros d’ El Rei e os nossos repórteres, no Mosteiro de São Domingos, o solo sagrado esteve perto de ser tingido de sangue, sangue de cristão-novo.

Em pleno serviço, aos gritos de “Milagre!”, entoados pela massa ávida por revelações e apoio divino, sobrepuseram-se as considerações de uma alma menos crédula.

Uma luz ou um sinal? Um cristão-novo apregoava que o que se via no altar era um reflexo de luz, que entrava por uma fresta; a multidão indignou-se perante a negação da sua visão e encontrou assim sobre quem exercer a catarse. Um alvo perfeito por ser estranho, diferente, introvertido e invejável na riqueza, um culpado inquestionável: o «Assassino de Jesus!».

Num ai, toda a cidade gritava as palavras condenatórias, toda a cidade espancava e sofria. Em dois dias morreram mais de dois milhares de cristãos-novos, às mãos de outros lisboeta, atiçados por ditos “puros” da fé cristã. Estava consumado um dos dias mais sangrentos da história desta cidade.

Sua majestade, indignada com o desrespeito pelas suas ordenações sobre os cristãos-novos, puniu severamente os “puros” e mais 50 de Lisboa morreram em consequência; desta feita, na forca. A cidade perdeu alguns dos favores d’ El Rei e o país, ou se calou por vergonha, ou ficou num murmúrio cúmplice.

Hoje, passados 10 anos, são ainda frequentes quezílias com pretexto religioso e o massacre, se bem que nunca mais repetido, surge ainda bem vivo na memória de uns e de outros, atravancando a boa vivência entre todos os de Portugal.

 GC: Mais um trabalho de Álvaro Torres para a Portugal FM.

A seguir à publicidade vamos ouvir os comentários dos dois lisboetas convidados.

Publicidade: Se está farto, fartinho da poalha e dos maus cheiros que infestam a cidade… Se enjoou a paleta de tecidos que tem em casa e procura algo diferente… Se tem problemas com a digestão ou se a comida não lhe sabe bem… Se sofre de dores frequentes nas cruzes e se tem caruncho nas pernas... Venha à loja de António Pais de Açafrão, o mais experimentado e viajado dos comerciantes com negócio na Capital do Reino! Desde as especiarias mais raras da Ásia, às mais puras águas de Sintra, tudo encontrará na mais frequentada e melhor apetrechada loja de Lisboa.

Para o povo e fidalguia, a todos servir com esmero! António Pais de Açafrão, à Rua Nova dos Mercadores.

GC: Mafalda Capitoa, o que se lhe oferece dizer neste aniversário da “Matança da Pascoela”?

Mafalda Capitoa (MC): Eu não tenho nada contra essa gente.

Eu não lido com eles, nem eles me compram peixe porque sabem bem que já os topei há muito. São uns falsos! Mas isso é lá com eles, não tenho que ver com isso. É com eles e com as suas almas. Deus não é cego! Ele tratará de os julgar. Por mim, desde que não me chateiem, nem me atrapalhem o negócio... Tudo bem.

Agora, nesse dia da Matança, eles estavam a pedi-las! Já se dizia por toda a cidade que tinha sido um deles que tinha trazido a peste num barco que veio de Roma! Depois, quando toda a cidade organizava preces e romarias, eles surgiam sempre com cara de poucos amigo e enfadados... É que nem disfarçavam! Naquele dia , disse-me a Alzira, minha vizinha, que estava lá em São Domingos, eles fizeram chacota do Espírito Santo que apareceu no altar!! Virgem Santissíma! O que é que seria de se esperar? Foi o que se sabe: arrastaram-nos à praça e entregaram-nos ao Senhor. E Este? Valeu-lhes? Acha que se fossem verdadeiros cristãos ele teria permitido tamanha perdição?

GC: Como interpretou a reacção d’El Rei?

MC: El Rei estava lá longe, em Aviz, longe da peste e mal informado. Os convertidos sempre tiveram amigos importantes na corte. Sempre foi assim, não é preciso ser-se fidalgo para se saber destas coisas. E assim sendo não lhes foi difícil maldizer o que aconteceu. Quando a notícia chegou aos ouvidos de sua majestade nós já éramos pintados de seres diabólicos e traidores! Mas é assim, o povo de Lisboa já sobreviveu a tormentas bem piores. E o amuo d’El Rei já passou há muito tempo! Não o viu hoje com o cortejo pela cidade? Estava um poço de sorrisos e boa disposição, home! 

GC: E você, Damião Vicente, que pensa deste assunto? Acha possível repetir-se uma matança como a de há 10 anos?

Damião Vicente (DV): Deus nos livre de repetir tamanho pecado. Pois se El Rei já esqueceu e perdoou, Deus tem a memória mais comprida, senhora peixeira! Não traga nos favores das suas preces as almas dos que matámos no meio daquela loucura e depois admire-se do que lhe calhar no Juízo Final!

Foi coisa de bárbaros, meus senhores! Pois eles não morriam de peste como nós? Não traziam no olhar o desespero de quem tinha perdido meia família? E que história é essa de fazerem chacota do Espírito Santo que apareceu em São Domingos? Eu, com estes, já vi o tal “Espirito Santo” dezenas de vezes no Mosteiro de São Domingos e já o tinha visto outras tantas antes daquela época! Era um reflexo, sim senhor! E se não fosse? Onde estava a cristandade de amparar quem duvidava, inundando-o com a sabedoria de quem tem fé? Quem nunca duvidou entre os cristãos?

Esta cidade está cheia e a encher por todas as portas! Vêm do interior, vêm de além-mar, têm cores diferentes, diferentes hábitos e saberes... O que será de nós se a todos culparmos do que não sabemos, não conhecemos ou não podemos combater? Como poderá esta ser a capital do mundo e nós o povo de paz e união que se exige entre os filhos de Deus? Porque todos o somos, à Sua imagem e semelhança!

MC: Tanto que peleja por tão pouca gente, Damião Vicente animador de sua majestade! 

DV: Tanto que se resolveu com a Matança de Pascoela, peixeira de quem lhe aprouver! Por ventura desapareceu a peste?

MC: Porventura desapareceram todos os cristão-novos da nossa cidade? 

DV: E não tem vossemecê nada contra “tal gente”!!

GC: Bom, não me cabe a mim ajuizar e considerar sobre as vossas opiniões, mas penso que os nossos ouvintes já têm dados suficiente para reflectir sobre o que dissestes.

Antes de terminarmos e uma vez que estamos em Lisboa, queria dar-vos a oportunidade, aliás como fazemos em todas as cidades por onde temos passado e com todos os entrevistados que convidamos, queria dar-vos a oportunidade, dizia, de que expressásseis quais os principais problemas da vossa cidade e quais os que gostaríeis de ver resolvidos o mais depressa possível. Mafalda Capitoa.

MC: Já não é para falar dos judeus? 

GC: Não. Diga-nos o que está mal na cidade, na sua opinião. Pode ser que alguém nos ouça...

MC: Olhe o que está mal é que haja tanto miserável pela cidade. Há por aí gente a morrer pelos cantos que é um dó. Pois se vêem que temos cá escravos que cheguem e que não há quem lhes dê ofício, porque insistem em ficar em Lisboa? Sim, que muitos deles vêm de fora e cá ficam a apodrecer e a empestar a cidade! El Rei que os ponha fora das muralhas e os mande para o campo que boa falta lá fazem.

Fique a saber que a minha prima Deolinda que esteve numa terrinha perto de Felgueiras me disse que nem braços havia para tocar o sino! Pois não estava um homem como convém em toda a aldeia, só as mulheres, velhos e crianças! O resto, andava entre portos ou vinha a caminho de Lisboa à sorte melhor. E depois vemo-los aqui: uns a definharem sem sustento e doentes, outros a estourarem o que têm no vinho ou no jogo, sempre à porrada... Isto é que está mal. O lugar deles não é aqui. 

GC: Damião Vicente...

DV: Então e a poeirada, os buracos e caboucos novos que aparecem a cada dia não incomodam tanto quanto essa miséria que não é escolhida mas destinada por estranhos andares do mundo e deste país? Pois se a um lado desses miseráveis se erguem monumentos, mosteiros, conventos e armazéns e ao outro passam fidalgos, senhoritos e até, com todo o respeito, peixeiras com corgalhos de escravos atrás, prontos, talvez, para lhes limpar o cu, não acha que isso é no mínimo igualmente chocante?  

MC: Ouça lá o seu peixe podre!! Chegue-se aqui que eu mostro-lhe como se amanha um carapau!!

DV: Construa-se, digo eu, que são precisos os hospitais, os mosteiros, conventos, paço e armazéns. Afinal, esta cidade quer-se digna da nossa façanha. Mas não se ofusquem com vaidades e brilhos vãos os de Lisboa e os do país que aqui chegam como moscas ao esterco.

Aprendi que na guerra, no mar e na vida tudo exige equilíbrio e talento. A nau quer-se, e tem de se querer, bem equilibrada antes de se fazer ao mar, pois, de outro modo, não se verá outro porto que o da largada.

Connosco, aqui em Lisboa, o risco é o mesmo. E o que custa ler as escrituras e de lá tirar estes ensinamentos? Tanto penou Abraão pelo seu vale fértil e para quê? Para esbanjá-lo confiando na riqueza de amanhã só porque foi boa o colheita deste ano? Onde estaríamos sem a riqueza que há-de navegar, sabe-se lá até quando, nestas naus que aqui temos à frente?

MC: Tanta palavra vossemecê diz que já me tenho tonta, homem! Fico-me com esta: Buscámos, encontrámos. O antigamente já passou. O que vê é bom, por isso, goze-o enquanto cá anda que nisto da vida homem e peixe estão sempre a trocar de lugar na ponta do anzol. Quanto ao equilíbrio, o que interessa é o da balança da Casa da Índia: que se continuem a pôr muitas medidas para chegar à conta do ouro e da especiaria.

GC: Assim termina mais um Novos Mundos, neste dia 8 de Abril de 1516. Para a semana não haverá programa: estaremos de viagem em direcção a Faro onde faremos uma entrevista em exclusivo com o Feitor da Mina em visita ao Algarve.

Boa noite e continue com a Portugal FM. Já a seguir e satisfazendo o pedido de vários ouvintes vamos retransmitir a «Farsa do Velho da Horta» da autoria de Gil Vicente, gravada há quatros anos no Paço da Ribeira.

Fim
 

Dados Estóricos Importantes:

- Álvaro Torres foi queimado num auto-de fé em 1541 acusado de heresia.

- Damião Vicente foi perseguido pela inquisição e crê-se que tenha fugido para o Brasil onde residiu sob falsa identidade até se fixar definitivamente em Nova Amsterdão.

- Mafalda Capitoa foi queimada juntamente com as suas quatro criadas escravas num auto-de-fé em 1541, acusadas de associação com o demónio e bruxaria.

- Gonçalo Cortez abandonou Lisboa no ano em que se instaurou o Santo Ofício e passou os seus dias a puxar o sino numa aldeizinha perto de Felgueiras na companhia de uma tal Deolinda que conheceu pouco depois desta entrevista numa das suas viagens pelo país

- Autor está farto de inventar nomes pseudo quinhentista e anda a tentar perceber em que é que o seu subconsciente se baseou para o consciente agora se perguntar porque é que o português que colocou na boca de personagens do século XVI resulta num linguajar tão arrevesado.

A Matança da Pascoela ocorreu de facto e é um episódio histórico também conhecido como o Progrom de Lisboa. O texto inspira-se em alguma informação recolhida sobre esse evento. No corrente ano de 2006 comemora-se o cinquentenário deste acontecimento.

janeiro 09, 2006

Escritor de papel

Umas gotas de sangue caíram-me num lenço de papel. Gotas gordas, pesadas.
O lenço interrompeu a queda livre com que fugiam do nariz, sem salpicos atrás. Mesmo assim caíram, um pouco, o suficiente para trespassarem o papel num instante, visando com a mesma cor compacta o outro lado.

Com outra luz e outro ar seria vermelho vivo, mas debaixo de um candeeiro e já absorvido pela folha branca, o vivo deu lugar ao vermelho seco, quase castanho.
No sítio onde limpei o nariz, após a última perda, vejo agora uma pincelada, um traço a óleo feito de pó de tijolo.

Fico curioso com o desenho que as gotas terão formado através do lenço semi-dobrado. Apartando duas pontas perturbo uma tensão que se criara num segundo: o sangue uniu as finas folhas que formam o lenço e resistem agora juntos ao estender do papel.
Este sangue já não é meu, mas tem uma cor bonita. Não sei que nome lhe dar mas é bonita a cor deste sangue de papel.

janeiro 05, 2006

Encostado ao mundo

Quando estava na rua, ao sol, encostado ao muro, sentindo o suave perfume das flores ou o intenso odor dos frutos maduros, dispunha-se a ficar ali para sempre, até ao fim, esperando pacientemente que nunca viesse a sentir que caía para o lado. Se pudesse escolher…
Oitenta e um anos. Nunca pensou chegar a velho e afinal ali estava, olhando os torrões de terra, as ervas, as árvores, os pássaros, os montes, o seu campo, no seu canto. Olhava também ao alto mas apenas para procurar nuvens, ou aves, o milhafre, as rolas… O azul imenso das alturas enfastiava-o.

Era um velho, velho por dentro e por fora. Afinal, nada é novo num velho, a menos que esteja vivo.
O corpo rangia, queixava-se, pesava-lhe, rebelava-se. O corpo aprendera a dizer-lhe que não há demasiado tempo. Por sorte… sim, por sorte, a negativa viera sem sobressaltos, progressiva, como um rio de nascentes seguras, oriundo de terras antigas, desenhadas em traços largos. Houve tempo para o compromisso, houve tempo para ir seguindo sempre o seu caminho, conhecer as dores, as limitações, antecipá-las e, em alguns casos, evitá-las descobrindo algumas redundâncias e auxiliares que a natureza lhe revelara no devido tempo.
A pele desaparecera das mãos, dos braços, restava apenas uma ruína denunciada por manchas e crateras que foram proliferando como ervas daninhas. Na face e no pescoço, escondera-se nas suas próprias pregas e rugas, ou então criara a sua própria arte, moldando-se caprichosamente num rosto singular, em permanente mudança.

Era seguro que o seu tempo estava contado, sempre estivera, para quê pensar nisso? Porquê não pensar? Quando se encostava ali, na rua, ao mundo, era imortal. Não era imortal como o são as crianças ou os adolescentes, era imortal como são os que respondem à dificuldade com um olhar no espelho, procurando encontrar a chama que os faz arribar. O pânico da morte que tantas vezes o assaltara quando jovem, era afinal o pânico de estar vivo. Agora, se havia bem que prezava era essa herança que ainda tinha: viver gozando sem dano insuportável até à inexorável partida.

Era um velho e vivia literalmente de memórias, mas não para as memórias. A lembrança da imortalidade juvenil era, quanto muito, combustível para aguentar mais uns minutos encostado ao seu muro, acrescentando paciência à paciência, dando que fazer aos seus sentidos semi-falidos, sorvendo todo o prazer que conseguia retirar do simples facto de ter todo o tempo do mundo para ir onde nunca tinha ido.
Enquanto ali estivesse encostado ao muro, com torrões de terra, ervas, árvores, pássaros e um ou outro fruto maduro a que pudesse lançar a mão, vivia como os ledos dos poemas, acrescentando um novo conto à sua história. Como este.
- - - -
E este é dedicado ao Filipe Nunes Vicente do Mar Salgado. Historinha escrita hoje de madrugada depois de ter passado por aqui.

janeiro 04, 2006

O Judeu português lá da Rua

Se a Cláudia, reside nas redondezas (Lisboa) e escreve em excelente Inglês, o Nuno Guerreiro escreve num belíssimo português, directamente dos USA na sua Rua da Judiaria; até agora da Califórnia, qualquer dia a partir da Big Apple.
A Rua da Judiaria tem como característica central tratar de pedaços de história, arte e cultura judaica, particularmente aqueles relacionados com Portugal e portugueses, ou seus descendentes, que se viram obrigados ou sentiram o apelo da diáspora. É nestes textos que melhor transparecem algumas das qualidades literárias e a capacidade de síntese e de sedução do autor do blogue - o Nuno é jornalista.
Em suma, a Rua da Judiaria reune, num weblog atraente e criteriosamente ilustrado, textos que merecem ser lidos em slow mode.
Uma das últimas peças que o Nuno Guerreiro nos ofereceu e que serve de pretexto a esta referência é o post: O Judeu português que inventou o telefone - 7 de Dezembro.
Uma história absolutamente surpreendente que começa assim:
 
"Johann Reis nasceu a 7 de Janeiro de 1834 na pequena cidade de Gelnhausen, próximo de Frankfurt, na Alemanha. O seu pai, Segismundo Reis, um padeiro de parcos recursos, era filho de judeus sefarditas portugueses oriundos da Beira Baixa que emigraram para a Alemanha nos finais do século XVIII, juntando-se inicialmente à florescente comunidade de judeus portugueses estabelecidos em Hamburgo.
Órfão de mãe aos 11 meses, Johann Philipp Reis perdeu também o pai quando tinha apenas 10 anos, sendo criado pela avó materna, uma Judia portuguesa extremamente culta e bastante religiosa. Estudante talentoso desde tenra idade, Johann Reis passava horas na biblioteca do colégio, o Instituto Hanssell, lendo tudo o que apanhava sobre as suas disciplinas favoritas: geografia, matemática, física e línguas. Um dos seus tios queria fazer dele um comerciante, profissão tradicional na família, mas Johann tinha outras aspirações. Aos poucos, pagou do seu bolso aulas privadas de matemática e física e em 1858, um ano antes de casar, aceita a posição de professor de matemática e ciências no Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, nos arredores de Frankfurt.
O caminho que o levaria à invenção do telefone teve início acidentalmente, quando Johann Reis investigava a possível construção de uma “orelha artificial” (künstliches ohr) para aliviar a surdez – uma doença que afectava a sua avô beirã, já em idade avançada. (...)" O resto está aqui.

janeiro 02, 2006

Deixe a Susana, pela sua saúde!

Deixe a Susana, pela sua saúde!

- Um conto com final emprestado -

I

Talvez por nunca ter resolvido definitivamente a sua primeira paixão, talvez porque fora ela a iniciá-lo no tabaco, para ele um cigarro só podia ser feminino, tratava-os todos por Susana. Encontramos Jorge, nervoso, de cara fechada e olhos cinzentos, numa manhã de Inverno, em errática retrospecção, desesperado por beijar novamente Susana.

 
Era naquele momento que mais detestava ter o vício do tabaco. Estava enfiado no túnel que liga a estação de Campolide à do Rossio, num comboio que esperava pacientemente uma quotidiana e inevitável mudança de agulha para reiniciar a marcha e completar os três minutos de percurso que faltavam até à paragem final.

Há mais de meia hora que não fumava mas o que o roía não era tanto o tempo da viagem sem puder fumar, era a ansiedade potenciada pelo sentimento de claustrofobia que o ambiente de sardinha-em-lata iniciava e que a espera no túnel rematavam. Num acto reflexo, quando o comboio abrandou anunciando a paragem no meio do túnel, acotovelou quem foi preciso para colocar a sua face a menos de um palmo da saída mais próxima.

Ao soar o apito estridente, avisador da abertura de portas, uma Susana em riste estava já nos seus lábios. Os seus olhos aguardavam de pálpebras semi-cerradas o fumo da queima da mortalha que o isqueiro, bem seguro na mão ligeiramente transpirada, desencadeava assim que o nariz transpunha o interior do comboio. O segundo passo no cais da estação era sempre acompanhado pela primeira baforada de fumo expelido, só depois poderia inalar e demorar-se um pouco mais com o cigarro, relaxando finalmente.

 
II

 
Havia dias em que ao acordar o ridículo da situação para que se encaminhava lhe surgia tão evidente e a sensação da angústia que experimentaria no túnel tão presente que se decidia a pegar no automóvel e enfrentar mais de uma hora de pára-arranca no insuportável Itinerário Complementar Número 19. Curiosamente era raro acender o segundo cigarro durante a viagem de automóvel. Este comportamento tinha tudo de atípico, num ambiente em que cada imobilização de veículos era motivo para milhares de passas ou para milhares de novos cigarros acesos ao longo dos quase vinte quilómetros de carros em fila.

Ele abria o primeiro pouco depois de fechar a porta de casa, acabava-o assim que o carro saía do seu bairro e seguia viagem levando uma Susana a passear pelo IC 19, esquecida num dos cantos da boca.

O Alfredo, companheiro acidental da linha de Sintra e colega de trabalho, todo ecologista e especializado em azucrinar a cabeça dos colegas com tiradas aplicadas ao quotidiano, (quase sempre baseadas em teoria económica catada nos canais de notícias da televisão por cabo e em visitas frequentes a blogues cheios de opiniões), não perdia a oportunidade para se meter com ele sempre que percebia que viera de automóvel – o que costumava coincidir com chegar atrasado.

“Então Jorge, lá deste mais um empurrão ao governo, hã? Olha que a gasolina voltou a subir ontem. É de tipos como tu que o país precisa: trabalhas que nem um mouro por conta de outrem, aliás, para o Estado, no teu cabaz de compras destacam-se o tabaco e o combustível… Só te falta um carro novo para entrares para o top dos portugueses com a maior carga fiscal. Dá cá um abraço, pá, és o meu herói!” Dito isto o homem, grande e arredondado, levantava-se da sua secretária e, apanhando o Jorge ainda de pé a arrumar o casaco, dava-lhe um valente e caloroso abraço que o Jorge retribuía sem má vontade. “Continua assim que é da maneira que o comboio vem mais vazio e eu arranjo lugar para dormir uma sesta. Hoje passei meia viagem a olhar para a capa de revista femininas com a imagem da Deborah Secco e a outra metade dormindo, a sonhar com ela. Sonhos lindos com a Deborah Secco, algures entre Massamá e Benfica! Não é para todos, pá! E tu, viste alguma jeitosa na faixa da direita? Olho o da frente, pá, não te distraías!” O Alfredo dizia isto, ou algo parecido, e atirava gargalhadas sempre que terminava uma frase, particularmente de manhã. Era, contudo, daquelas pessoas a quem o riso assentava como uma remissão: era impossível alguém se irritar com ele perante o sorriso gozão e as melodiosas gargalhadas cavas que mobilavam uma cara bolachuda de bonacheirão. Fosse o Alfredo magricela, dotado de uma vozinha ligeiramente mais aguda e não tivesse ele vencido um cancro no pulmão fruto de duas décadas de 5 maços ao dia e teria tido uma existência bem mais atribulada e, talvez mesmo, mais curta. Assim, passava incólume, disparando puro veneno a uma hora imprópria do dia.

 
Desde que se apercebera que fumava menos quando viajava de carro, Jorge arranjara variações inspiradas numa resposta impregnada de ideias feitas, à altura das teorias do colega. Da última vez em que a cena se repetira saíra-se com esta: “Caro Alfredo, vir de carro passou para mim a ser um dos muitos passos de uma terapia para abandonar o tabaco. O comboio cheio de gente, hermeticamente fechado entre estações e de vidros foscos que tapam mais a vista de quem espreita para fora do que ao contrário, cria-me necessidades de nicotina no sangue como mais nada que eu conheço. Olha para este maço aberto quando saí de casa. Vê lá quantos cêntimos é que ainda não dei ao Estado? Tivesse eu vindo de comboio e teria queimado meio maço entre o sair do comboio e o chegar aqui. Isto compensa largamente o aumento da gasolina e, como dizes, estou a contribuir para a qualidade de vida dos utentes de transportes públicos, fãs da Deborah Secco incluídos!”

Dada a resposta, sentavam-se ambos e o Alfredo findava as hostilidades sempre com uma nota do género: “És um bom samaritano, Jorge, já te disse: o meu herói fiscal!”

 
III

 
Era no filme habitual das manhãs no escritório que Jorge pensava enquanto pisava o cigarro terminado, na saída superior da Estação do Rossio. A breve pausa serviu para tomar balanço: preparou-se para rumar ao Bairro Alto subindo a Calçada do Duque. Fê-lo em passo ligeiro para testar a sua capacidade pulmonar e ficou satisfeito por não ter tido a necessidade de parar ou abrandar o ritmo ainda que, vencido o obstáculo, lhe tenha passado pela cabeça a leitura irónica do topónimo: afogueado, chegara ao Largo da Misericórdia.

Nessa manhã não iria trabalhar, tirara meio-dia para comprar prendas de Natal para os colegas de trabalho: gulodices para todos, compradas numa lojinha de delicadezas como há poucas no País. Para todos, excepto para o guloso Alfredo a quem iria oferecer “O Manual da Pegada Ecológica”, um livro grossíssimo de capa abstracta, repleta de gráficos e figuras geométricas, que vira numa noite de copos no Bairro Alto, na montra de uma improvável livraria, entalada entre bares e restaurantes. “Para que não te falte teoria às oito da manhã” escreveria na dedicatória quando parasse para comer.

Tudo lhe correu conforme planeado: comprou as gulodices, depois o pesado tomo, demorando-se a espreitar os dois andares da pequena livraria. De seguida, comeu uma tosta mista e bebeu um galão para enganar o estômago e caminhou a pé, lentamente, para o escritório, próximo do Marquês de Pombal.

Fez o percurso em uma hora, entretendo-se com a antecipação da entrega das prendas que sempre lhe dava algum prazer. A tarde daquele dia de Dezembro era habitualmente dedicada à troca de prendas no escritório - com a excepcional autorização do senhor director-geral. E a noite terminava com um jantar da malta do serviço, bem comido e bem regado, sempre no “Cantinho Fiel” em Alfama.

Jorge contava abrir as hostilidades assim que chegasse ao escritório com uma tirada sobre metabolismo, exercício matinal e a influência nefasta dos caminhos-de-ferro no consumo de tabaco: decidiu declarar solenemente que só fumaria nos espaços públicos dos Caminhos-de-Ferro portugueses onde isso não fosse proibido.

Já perto do destino, demorou-se um pouco a observar as bolas redondas da iluminação natalícia que adornavam a Avenida e que permaneciam acesas até àquele momento do dia. Sentou-se num banco da Avenida, puxou do maço de cigarros, fumou a última Susana que lhe restava e enterrou-se no casaco, gozando um pouco do frio do Inverno que a poluição automóvel não conseguiu afastar totalmente do centro da cidade. Antes de retomar a marcha escreveu uma nota mental: tenho que visitar a Afrodite.

 
IV

 
Jorge não chegou a entregar “O Manual da Pegada Ecológica”. Encontrou o Alfredo morto no átrio dos elevadores que davam acesso ao escritório, agarrado a Afrodite, mãe de todas as Susanas: a máquina de venda de tabaco que habitava o lugar e que, por uma sucessão de eventos caprichosamente alinhados no tempo, veio nesse dia a estar numa condição tal que propiciou a electrocussão do seu colega e amigo.

Jorge acabaria o dia sentado no comboio de Sintra, paralisado, repetindo a viagem entre as duas estações terminais, olhando absorto para um automóvel tosco feito de vários maços de tabaco que lhe ocupava o colo. Finalmente, acordou daquele torpor já a noite ia alta. Saiu na estação certa e, mal pôs um pé na gare, ficou imediatamente encharcado. Uma chuva diluviana amassava aquele canto do país, relembrando-o que estava vivo. O frio da manhã desaparecera e o martelar contínuo da chuva sobre o corpo não era de todo desconfortável. Abrigou o melhor que pode o automóvel de tabaco debaixo da roupa e dirigiu-se ligeiro para o seu carro que deixara no estacionamento que servia a Estação. Precisava desesperadamente de beijar uma Susana.

Mas Jorge nunca chegou a fumar nenhuma das Susanas da prenda que o Alfredo tentara terminar nessa manhã. A ânsia era imensa, a chuva um lençol pegado, Jorge morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego.