No tunel
“Encerrou o ficheiro sem gravar e demorou-se um pouco olhando a imagem dos Alpes Bernenses que tinha como fundo do computador. Depois, numa sucessão de gestos rápidos, mecanizados, pôs o antivírus a inspeccionar o disco, desligou o monitor, ajeitou a papelada numa resma, enfiou tudo no bloco de gavetas, trancou-o e parou por um instante, olhando a chave que acabou por guardar no bolso.
Levantou-se, agarrou na sacola e no cachecol que tinha pendurado no cabide, dirigiu-se à porta, abriu-a, desligou o ar condicionado, apagou a luz da sala e ficou na penumbra entre as luzes de presença do corredor e a noite luminosa da cidade. Da janela próxima via a Avenida repleta de bolas coloridas que tentavam animar o Natal. Meio escondido pelas árvores que acompanhavam a Avenida, via o átrio transparente do prédio de lojas e de escritórios situado em frente ao seu; bem no centro piscavam cadenciadas as luzes de uma árvore de natal, muito verde, muito dourada, muito alta. O céu estava tingido de uma cor de néon alaranjado, coberto de uma fina película de nuvens refractárias… “Tive sucesso como publicitário porque sou uma pessoa simples” murmurou pela primeira e última vez para si próprio convencendo-se definitivamente da vacuidade de todos os lemas e motes de vida. Meteu a mão ao bolso e despejou a chave no caixote do lixo que tinha junto à porta. Há demasiado tempo que não subia ao cimo de uma montanha. Ajeitou o cachecol escondendo parte do sorriso que o surpreendia na face, saiu, fechou a porta e não regressou. Fim.”
Fechou o livro, pousou-o no colo, sorveu as últimas gotas do pacote de leite com extra-cálcio e sabor a morango que guardou no interior da sua imensa mala de senhora-moça e olhou pela janela, pela sua janela de vidro fosco. Ali o mundo passava-lhe a alta velocidade, disforme, quase sempre negro, absolutamente negro agora. Olhou o livro, acariciou-lhe as letras da capa, ligeiramente relevadas, e teve desejos de ruminar uma super-gorila. Aconteceu-lhe isto várias vezes desde que na tarde anterior, na estação de Correios, comprara aquele livro fininho, rosa-choque, com letras amarelo eléctrico. Há uma tabacaria à saída da estação dos Restauradores, pensou, tentando preservar um lembrete mental.
Geralmente não comprava livros fisicamente tão leves. Adorava ir às livrarias e levar para casa autênticos colossos, tipicamente romances históricos, epopeias fantásticas ou thrillers com grande saída, mas naquele momento, nos correios, a espera pela sua vez obrigou-a a uma interminável exposição às cores florescentes do livro, o que veio a produzir nela uma reacção hipnótica que se quebrara havia apenas alguns instantes: ajeitou o cachecol escondendo parte do sorriso que o surpreendia na face.
Em bom rigor não se recordava de grande coisa desde que começara a ler o livro, não sabia o que tinha ido fazer aos correios, como tinha regressado a casa, o que jantara, quando se deitara. Lembrava-se apenas de estar a tomar o pequeno-almoço quando retomou a leitura do pouco que restava do livro, e isto acontecera há menos de uma hora. Também então o livro lhe dera desejos de enfiar uma pastilha elástica na boca, a tal ponto que quase cuspiu no prato a última dentada da torrada com manteiga que subitamente lhe pareceu borracha mascada, já sem sabor.
Há muitos anos que não lhe acontecia semelhante estado de alma a pretexto da leitura de um livro. Aquele final incerto mas, para ela, cheio de esperança, divertia-a e acalmava-a, ainda que sentisse algum incómodo perante a sabor sugestionado que trazia na boca e que teimava em persistir, mesmo depois de ter antecipado o leite amorangado com extra-cálcio que guardara na mala instantes antes de sair da casa, com o fito de o reservar intacto até à hora do lanche. O que é certo é que iria seguramente procurar mais livros daquele escritor, talvez na mesma tabacaria em que compraria as pastilhas, nos Restauradores.
Arrumou o livro na sua mala imensa de senhora-moça e voltou a olhar a janela escura.
O comboio abrandava para dar passagem a outra composição que circulava em sentido contrário. Este ritual diário assinalava que se avizinhavam do final do túnel e da paragem terminal. Funcionava também como primeiro aviso de partida para muitos passageiros. Ela desempenhou o seu papel e levantou-se para se aproximar da porta.
Em dias normais, a breve pausa do comboio era suficiente para completar esta empresa e ainda ajeitar disfarçadamente aquela madeixa teimosa sempre presente no reflexo do vidro da porta. Neste dia porém, uma conjugação desfavorável de excesso de passageiros no corredor junto do seu banco e de maior rapidez e brusquidão na manobra ferroviária, deixaram-na a meio caminho entre um encosto de assento que se largava com uma mão e um corrimão vertical que se visava com outra. Quase caiu de quatro no meio do chão.
Enquanto duas raparigas se desviaram muito lestas para não lhe prejudicarem a trajectória descendente, o revisor que por ali estava, já junto à porta, assegurou-lhe a compostura no último momento, puxando-a para ele, agarrando-a por trás e quase a levantando no ar, presa pelas ancas. No entretanto, a imensa mala soltou-se do ombro e ganhou um impulso tal que fez um mortal perfeito de alças encarpadas. No meio da agitação, visualizou o espectáculo num bizarro efeito de câmara lenta: a sua mala imensa a vogar pelo ar e a aterrar com a abertura para cima. O desfecho lembrou-lhe uma frase curiosa que recordava de uma telenovela brasileira “Pão de pobre quando cai, cai com a manteiga para baixo”. Ainda zonza da semi-queda e do enlace, perspectivou com terror o que seria ter de recuperar o conteúdo da sua mala, espalhado pela carruagem, em plena hora de ponta. Murmurou um “Devo ser rica!” num esforço de auto-incentivo.
Os danos foram mínimos, apenas o livro florescente se libertara na rotação da mala e se prostrara no chão, dois metros adiante, para ser de imediato espezinhado pelo cego-pedinte de serviço à linha de Sintra naquela manhã que se entretinha a contar o moedário arrecadado durante a viagem, enquanto caminhava inexoravelmente para o final da carruagem.
Ela agradeceu ao revisor não se demorando na troca de olhares, apesar da surpresa roborizante - como era alto, possante e negro! -, recuperou de imediato a imensa mala e, com mais esforço, o livro que entretanto encontrara poiso debaixo de uma fila de assentos já vazios de passageiros. Estes apertavam-se nesse instante contra os vidros das portas aguardando o tiro de partida sob a forma do apito estridente do avisador de abertura de portas.
Já de punho bem firme no corrimão do corredor espreitou o livro sujo que se abria, vincado, na última página, rasgada. Verificou que tinha agora um novo final: “…enfiou tudo no bloco de gavetas, trancou-o e parou por um instante, olhando a chave que acabou por guardar no bolso.”
O comboio tinha acabado de parar no Rossio.
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Brincadeira primeira dedicada à Catarina, ao Luís e a Cláudia.
Comments
Obrigada! :)))))
Posted by: catarina | dezembro 14, 2005 12:45 AM
Bem vinda a mais um pátio de recreação :-)
Ainda por cima logo com um texto todo desfeito por azelhice no gatilho. Agora já está melhor.
Posted by: Rui MCB | dezembro 14, 2005 01:00 AM
Uma primeira crítica...
Porque é que este blogolento não deixa fazer um copy/paste, uhm?
Está mal.
Para se fazer uma citação temos de escrever, o que nos faz mal à cabeça dos dedos. Cheira-me que ainda anda por aí escondido aquele senhor Vergílio ou Virgilio, que em tempos raptou o Rui e que agora o não deixa citar... :)
Mas o que interessa é que voltámos às estórias.E verdade, verdadinha é que gostamos das estórias que o Rui conta.
Um grande abraço e grande sucesso.
Posted by: LNT | dezembro 14, 2005 01:06 AM
:-)
Provavelmente eu estava a corrigir o erro ou coisa que o valha e a página carregou meia torta, sei lá. Eu consigo fazer copy/paste, será que agora já dá?
Obrigado pelo incentivo! Um abraço.
Posted by: Rui MCB | dezembro 14, 2005 01:14 AM
De facto algo está esquisito, mas carregando no Permalink dá para copiar pedaços do texto de lá.
Posted by: Rui MCB | dezembro 14, 2005 01:20 AM
Já se copia.
Talvez um chuto nos V(e)(i)rgílios faça isso passar.
:)
Posted by: LNT | dezembro 14, 2005 02:09 AM