" /> Blogolento - Slow Blog: dezembro 2005 Archives

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dezembro 15, 2005

... on the same pedestal on my left ...

She is Portuguese, lives mainly in Lisbon, Portugal, and writes beautifully, both in English and in Portuguese. She is also a very good amateur photographer. Well, but that’s just my opinion.
I think she has a slow blog (I wonder if she agrees with this vague label). She authors “O Mundo de Claudia”, an English written weblog.
I take some time to read it, once in a while. And you, what about spending some minutes enjoying a “Winter Sun”.

An excerpt:
(…)I suddenly feel observed. What is this primitive skill humans still have, this alertness that doesn't leave us to rest, like preys waiting to be hunted? I look behind me and between the iron legs of that grotesque statue figure, I see a man with a camera taking a photo. Of the statue? A photo of me? It doesn't matter, by this point I am convinced there is a universal plot against my reading. (…)

dezembro 14, 2005

No tunel

Encerrou o ficheiro sem gravar e demorou-se um pouco olhando a imagem dos Alpes Bernenses que tinha como fundo do computador. Depois, numa sucessão de gestos rápidos, mecanizados, pôs o antivírus a inspeccionar o disco, desligou o monitor, ajeitou a papelada numa resma, enfiou tudo no bloco de gavetas, trancou-o e parou por um instante, olhando a chave que acabou por guardar no bolso.

alpes_2005.JPG

Levantou-se, agarrou na sacola e no cachecol que tinha pendurado no cabide, dirigiu-se à porta, abriu-a, desligou o ar condicionado, apagou a luz da sala e ficou na penumbra entre as luzes de presença do corredor e a noite luminosa da cidade. Da janela próxima via a Avenida repleta de bolas coloridas que tentavam animar o Natal. Meio escondido pelas árvores que acompanhavam a Avenida, via o átrio transparente do prédio de lojas e de escritórios situado em frente ao seu; bem no centro piscavam cadenciadas as luzes de uma árvore de natal, muito verde, muito dourada, muito alta. O céu estava tingido de uma cor de néon alaranjado, coberto de uma fina película de nuvens refractárias… “Tive sucesso como publicitário porque sou uma pessoa simples” murmurou pela primeira e última vez para si próprio convencendo-se definitivamente da vacuidade de todos os lemas e motes de vida. Meteu a mão ao bolso e despejou a chave no caixote do lixo que tinha junto à porta. Há demasiado tempo que não subia ao cimo de uma montanha. Ajeitou o cachecol escondendo parte do sorriso que o surpreendia na face, saiu, fechou a porta e não regressou. Fim.

Fechou o livro, pousou-o no colo, sorveu as últimas gotas do pacote de leite com extra-cálcio e sabor a morango que guardou no interior da sua imensa mala de senhora-moça e olhou pela janela, pela sua janela de vidro fosco. Ali o mundo passava-lhe a alta velocidade, disforme, quase sempre negro, absolutamente negro agora. Olhou o livro, acariciou-lhe as letras da capa, ligeiramente relevadas, e teve desejos de ruminar uma super-gorila. Aconteceu-lhe isto várias vezes desde que na tarde anterior, na estação de Correios, comprara aquele livro fininho, rosa-choque, com letras amarelo eléctrico. Há uma tabacaria à saída da estação dos Restauradores, pensou, tentando preservar um lembrete mental.

Geralmente não comprava livros fisicamente tão leves. Adorava ir às livrarias e levar para casa autênticos colossos, tipicamente romances históricos, epopeias fantásticas ou thrillers com grande saída, mas naquele momento, nos correios, a espera pela sua vez obrigou-a a uma interminável exposição às cores florescentes do livro, o que veio a produzir nela uma reacção hipnótica que se quebrara havia apenas alguns instantes: ajeitou o cachecol escondendo parte do sorriso que o surpreendia na face.

Em bom rigor não se recordava de grande coisa desde que começara a ler o livro, não sabia o que tinha ido fazer aos correios, como tinha regressado a casa, o que jantara, quando se deitara. Lembrava-se apenas de estar a tomar o pequeno-almoço quando retomou a leitura do pouco que restava do livro, e isto acontecera há menos de uma hora. Também então o livro lhe dera desejos de enfiar uma pastilha elástica na boca, a tal ponto que quase cuspiu no prato a última dentada da torrada com manteiga que subitamente lhe pareceu borracha mascada, já sem sabor.

Há muitos anos que não lhe acontecia semelhante estado de alma a pretexto da leitura de um livro. Aquele final incerto mas, para ela, cheio de esperança, divertia-a e acalmava-a, ainda que sentisse algum incómodo perante a sabor sugestionado que trazia na boca e que teimava em persistir, mesmo depois de ter antecipado o leite amorangado com extra-cálcio que guardara na mala instantes antes de sair da casa, com o fito de o reservar intacto até à hora do lanche. O que é certo é que iria seguramente procurar mais livros daquele escritor, talvez na mesma tabacaria em que compraria as pastilhas, nos Restauradores.

Arrumou o livro na sua mala imensa de senhora-moça e voltou a olhar a janela escura.

 

O comboio abrandava para dar passagem a outra composição que circulava em sentido contrário. Este ritual diário assinalava que se avizinhavam do final do túnel e da paragem terminal. Funcionava também como primeiro aviso de partida para muitos passageiros. Ela desempenhou o seu papel e levantou-se para se aproximar da porta.

Em dias normais, a breve pausa do comboio era suficiente para completar esta empresa e ainda ajeitar disfarçadamente aquela madeixa teimosa sempre presente no reflexo do vidro da porta. Neste dia porém, uma conjugação desfavorável de excesso de passageiros no corredor junto do seu banco e de maior rapidez e brusquidão na manobra ferroviária, deixaram-na a meio caminho entre um encosto de assento que se largava com uma mão e um corrimão vertical que se visava com outra. Quase caiu de quatro no meio do chão.

Enquanto duas raparigas se desviaram muito lestas para não lhe prejudicarem a trajectória descendente, o revisor que por ali estava, já junto à porta, assegurou-lhe a compostura no último momento, puxando-a para ele, agarrando-a por trás e quase a levantando no ar, presa pelas ancas. No entretanto, a imensa mala soltou-se do ombro e ganhou um impulso tal que fez um mortal perfeito de alças encarpadas. No meio da agitação, visualizou o espectáculo num bizarro efeito de câmara lenta: a sua mala imensa a vogar pelo ar e a aterrar com a abertura para cima. O desfecho lembrou-lhe uma frase curiosa que recordava de uma telenovela brasileira “Pão de pobre quando cai, cai com a manteiga para baixo”. Ainda zonza da semi-queda e do enlace, perspectivou com terror o que seria ter de recuperar o conteúdo da sua mala, espalhado pela carruagem, em plena hora de ponta. Murmurou um “Devo ser rica!” num esforço de auto-incentivo.

Os danos foram mínimos, apenas o livro florescente se libertara na rotação da mala e se prostrara no chão, dois metros adiante, para ser de imediato espezinhado pelo cego-pedinte de serviço à linha de Sintra naquela manhã que se entretinha a contar o moedário arrecadado durante a viagem, enquanto caminhava inexoravelmente para o final da carruagem.

Ela agradeceu ao revisor não se demorando na troca de olhares, apesar da surpresa roborizante - como era alto, possante e negro! -, recuperou de imediato a imensa mala e, com mais esforço, o livro que entretanto encontrara poiso debaixo de uma fila de assentos já vazios de passageiros. Estes apertavam-se nesse instante contra os vidros das portas aguardando o tiro de partida sob a forma do apito estridente do avisador de abertura de portas.

Já de punho bem firme no corrimão do corredor espreitou o livro sujo que se abria, vincado, na última página, rasgada. Verificou que tinha agora um novo final: “…enfiou tudo no bloco de gavetas, trancou-o e parou por um instante, olhando a chave que acabou por guardar no bolso.”

O comboio tinha acabado de parar no Rossio.

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Brincadeira primeira dedicada à Catarina, ao Luís e a Cláudia

dezembro 13, 2005

Eu tenho um blogue

O adufe só pára quando se quedar o coração, mas o coração não resiste à cadência contagiante e permanente do batuque acelerado dos dias.
É preciso tempo para esquecer o frenesim e brincar um pouco. Haja tempo para ir navegando neste blogolento.

Blogolento, um blogue frito em óleo sempre novo.